Etanol Americano

Em apenas três anos, os Estados Unidos se tornaram o maior produtor mundial de álcool. E a despeito das crÍticas, o futuro do segmento tende a ser ainda mais promissor



Chuck Grassley é de uma família de agricultores. Em 1964, comprou sua própria terra em Iowa, nos Estados Unidos, que hoje administra em parceria com o filho Robin. A vida no campo, iniciada mais de meio século atrás, quando seu pai, Louis Grassley, comprou a primeira fazenda da família ao retornar para casa após a Segunda Guerra Mundial, ainda é vigorosa. Na propriedade de 324 hectares (cerca de 800 acres), são cultivadas volumosas safras de milho e soja. Mas foi como senador que Grassley realmente se destacou na agricultura.

Poderoso e incansável, o político se posicionou como grande defensor do desenvolvimento de fontes renováveis de energia desde o início de sua estadia no Congresso, em 1980. Na década de 1990, ele trabalhou arduamente para expandir a produção e a utilização do etanol no mercado americano. Em 1997, conseguiu multiplicar o programa: como presidente da Comissão de Finanças do Congresso, Grassley criou o crédito fiscal para o etanol, que anos depois foi estendido para a produção de energia eólica, biodiesel e biomassa. Por ações como essas, o senador é visto com um dos mais entusiasmados proponentes dos combustíveis renováveis nos Estados Unidos. Obcecado pelo tema, ele defende ainda que 25% da energia americana seja oriunda de fontes renováveis até 2025.

Com tal currículo, não é de admirar que Grassley seja uma força virtuosa contra os esforços para minar a expansão da produção de etanol nos Estados Unidos. Seu discurso é claro: "Trabalhamos a indústria de etanol por 25 anos. Nos último triênio, em função do preço do petróleo, ela se expandiu rapidamente, mas o fato é que trinta anos atrás as pessoas pediam um combustível renovável. Hoje, essa indústria existe, cerca de 5% do consumo americano de combustível é de etanol e agora somos considerados vilões", avalia Grassley.
Senador Chuck Grassley vende para destilarias de Iowa a maior parte de sua produção de milho

Diferente do que aconteceu no Brasil, onde a cana-de-açucar não concorre com os alimentos e os carros flex (que podem ser movidos à gasolina ou álcool) já representam 20% da frota brasileira de veículos leves, nos Estados Unidos a produção do combustível é polêmica. De um lado, estão os altos preços do petróleo e a necessidade americana de reduzir sua dependência do Oriente Médio, reforçada pela pressão mundial para que os países desenvolvidos se comprometam com a redução de emissão de gases poluentes e invistam em energia renovável. De outro lado, está a discussão sobre os preços dos alimentos, em alta depois que parte da safra de milho dos Estados Unidos foi deslocada para a indústria de combustíveis.

"Muita gente quer fazer crer que a principal razão do aumento dos preços dos alimentos seja o etanol, mas a Iowa State University tem um estudo que indica que a gasolina estaria 30 centavos de dólar mais cara por galão se não tivéssemos o etanol. Portanto, se não fizéssemos etanol, os preços dos alimentos estariam altos, bem como os da gasolina", defende Grassley.

Em geral, as críticas à produção americana de etanol são sustentadas por fatores que vão muito além da discussão sobre a alta dos preços dos alimentos no mundo. Se comparados aos indicadores brasileiros, os números da indústria americana estão longe de serem atraentes. O álcool produzido a partir da cana-de-açúcar rende 7 mil litros por hectare. Já o de milho rende 3,5 mil litros. Além disso, sob o ponto de vista ambiental, a cana também é mais vantajosa, uma vez que cada unidade de energia fóssil usada na produção do combustível gera 9,3 unidades de etanol. No caso do milho, a relação é de 1 para 1,5 unidade. Há ainda a questão dos subsídios aos produtores de milho e ao comércio de etanol no mercado americano, amplamente questionados pela comunidade internacional. "No Brasil o único destino da cana-de-açúcar é a usina, enquanto nos Estados Unidos o milho, que já era disputado pelas indústrias de rações, bebidas e alimentos, tem na usina mais um concorrente", diz Joel Velasco, representante da Unica - União da Indústria de Cana-de-açúcar, em Washington. Ainda assim, Roberto Rodrigues, diretor do Centro de Estudos do Agronegócio na Fundação Getúlio Vargas, apóia a indústria americana de etanol. "Eles estão certos. Trata-se de uma questão de segurança energética. Hoje, não há sociedade que avance sem energia", afirma Rodrigues, também filho de um agricultor, que trocou em 1957 a plantação de algodão pela de cana-de-açúcar. Formado em agronomia e reconhecido como uma das mais importantes lideranças rurais do Brasil, Roberto Rodrigues também dedicou anos de sua vida ao desenvolvimento de uma política energética eficiente para o seu país. Como Ministro da Agricultura do Brasil - cargo exercido entre 2003 e 2006 -, uma de suas ações mais divulgadas foi a criação do Plano Brasileiro de Agroenergia, cuja meta é garantir a sustentabilidade e a competitividade do setor no mercado interno.
MODELOS INTERNACIONAIS
Algumas características da produção de etanol de milho e de cana
MILHO

CANA
>>>Nos Estados Unidos, a produção de etanol a partir do milho está ajudando a inibir a alta das cotações da gasolina. Estudos indicam que a gasolina estaria 30 centavos mais cara se não houvesse o etanol.

>>>Neste ano, cerca de 30% da safra americana de milho será usada para a produção de etanol, ou seja, 3,5 bilhões de bushels, que renderão ao país algo em torno de 9 bilhões de galões do combustível.

>>>A tecnologia celulósica, que permite o uso de resíduos (madeira, bagaço, capim) na produção de etanol, triplicará a produção americana, que deve chegar a 36 bilhões de galões em 2022.
>>>Segundo a OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a cana produz o combustível mais limpo do mundo e reduz as emissões de gases que provocam o efeito estufa em até 90%.

>>>A cana não compete com alimentos. Ela promove a produção de grãos como amendoim, soja e milho, uma vez que na rotação de culturas, 20% da área é usada para cultivo de grãos e preservação do solo.

>>>No Brasil, as vendas de etanol já superam as de gasolina. Estimativas indicam ainda que, em 2012, 50% da frota nacional de veículos leves será de unidades com tecnologia flex.

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