DINAMARQUESA NOVOZYMES INVESTE EM ETANOL CELULÓSICO

DINAMARQUESA NOVOZYMES INVESTE EM ETANOL CELULÓSICO

O Brasil deverá ser o primeiro país do mundo a produzir comercialmente álcool de segunda geração, o chamado etanol celulósico. Isso pode até dobrar a capacidade de produção de etanol do país sem a necessidade de plantar novas áreas de cana-de-açúcar. A previsão é de Steen Riisgaard, presidente e CEO da Novozymes, empresa dinamarquesa líder mundial do setor de enzimas.
Enzimas são substâncias, normalmente proteínas, que catalizam uma reação química, permitindo que ela ocorra em condições diferentes das normais (mais rapidamente ou em temperatura mais baixa). Isso permite economizar tempo, energia ou uso de outros produtos químicos. As enzimas são usadas em muitos setores, como produtos de limpeza e alimentos (pão e cerveja, por exemplo).
A Novozymes é líder na produção de enzimas, com 45% do mercado global, segundo dados da empresa, que deve faturar cerca de US$ 1 bilhão este ano. Ela é um exemplo do modelo empresarial que vem se desenvolvendo nos países nórdicos: companhias de nicho em setores de tecnologia, que usam de mão-de-obra altamente especializada. A segunda maior empresa de enzimas, a Danisco, com 25% da fatia mundial, também é dinamarquesa.
O maior foco de pesquisa da Novozymes é o desenvolvimento de enzimas para produção de etanol de segunda geração. Isto é, que pode ser produzido a partir de qualquer planta ou resíduo vegetal, não apenas de cana ou milho.
No processo de segunda geração, a celulose da planta é transformada, por meio de enzimas, em outros açúcares, que podem ser fermentados para a produção de etanol. "O bagaço da cana tem muita celulose. Nós convertemos essa celulose em açúcar. Com isso, podemos dobrar a produção de etanol sem aumentar a área plantada", diz Riisgaard.
Esse processo de hidrólise enzimática já é conhecido e vem sendo muito pesquisado em todo o mundo, inclusive no Brasil. Mas, por enquanto, é muito caro. Segundo Riisgaard, para se produzir um galão de etanol gasta-se US$ 1,2 só em enzimas, o que torna o custo proibitivo. "O fator-chave é reduzir o custo das enzimas."
No entanto, esse custo era três vezes maior alguns anos atrás. Segundo Riisgaard, o objetivo é reduzi-lo a um sexto, o que tornaria o processo rentável. "Ainda há quatro anos de pesquisa pela frente antes que a tecnologia seja comercialmente viável." O início da produção de etanol em escala comercial deve demorar ainda mais.
Mas essa é a grande aposta da Novozymes, pois o mercado potencial é gigantesco. "É o maior projeto de pesquisa para nós", diz Riisgaard. "Acho que nenhuma outra empresa tem uma capacidade tão ampla no setor de enzimas, o que facilita a nossa pesquisa."
Ele estima que, para transformar todo o bagaço do milho nos EUA em etanol de segunda geração, seria necessário multiplicar por cinco ou dez vezes toda a capacidade de produção mundial da Novozymes. "Essa oportunidade com o etanol de segunda geração é a maior em 20 anos."
Mas por que o Brasil sairia à frente na produção, se países como Estados Unidos e China estão investindo muito em pesquisa, até em parceria com a Novozymes? "A China está muita ativa, assim como os EUA, mas o Brasil tem vantagens", afirma Riisgaard. Essa vantagem está justamente na cana. Em primeiro lugar, o processo de extração de açúcar a partir de celulose do bagaço da cana é um pouco mais simples do que com o bagaço do milho. Em segundo lugar, o bagaço da cana já está na usina, enquanto o do milho precisa ser recolhido, o que implica custo adicional.
A Novozymes já atua no Brasil. Tem um fábrica em Curitiba, que produz enzimas para várias finalidades, como panificação, rações animais e indústria têxtil, e que centraliza as operações da empresa na América Latina.
Riisgaard afirma que as enzimas para o etanol de segunda geração no Brasil seriam provavelmente produzidas no país, "ou na fábrica de Curitiba ou em pequenas unidades próximas das usinas de etanol. Isso vai depender do custo de transporte".
Para ampliar sua presença no setor de etanol, a Novozymes deve assinar esta semana, durante a visita do presidente Lula à Dinamarca, um acordo de pesquisa com o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), de Piracicaba (SP), "com o objetivo de desenvolver o etanol de segunda geração". Isso deve implicar algum novo investimento da empresa no país. A Novozymes espera ainda assinar um acordo de cooperação com a Petrobras, cujos detalhes ainda estavam em negociação na semana passada.
Questionado sobre se essa pesquisa no Brasil precisaria de apoio do governo, como já ocorre nos EUA e na China, Riisgaard deixou a porta aberta. "Vamos começar a trabalhar com o CTC e depois veremos do que precisamos. Após testes em pequena escala, precisaremos testar em grande escala, o que é caro." Segundo ele, instalações de demonstração já estão sendo construídas nos EUA, ao custo de US$ 100 milhões (Valor, 10/9/07)

PETROBRÁS ASSINA ACORDO PARA DESENVOLVER ÁLCOOL DE CELULOSE

Tecnologia permitirá que País dobre produção sem elevar área plantada.
Um acordo entre a Petrobrás, a empresa produtora de enzimas industriais Novozymes e a Universidade Tecnológica da Dinamarca (DTU, em dinamarquês) para cooperação no desenvolvimento de etanol de segunda geração - feita com sobras de colheitas - deverá ser um dos pontos centrais da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Países Nórdicos, iniciada hoje.
Ainda em fase de desenvolvimento, a tecnologia permitirá que o País dobre a produção de álcool sem plantar mais um metro de cana-de-açúcar. O protocolo, que vem sendo negociado há algumas semanas, deverá ser assinado pelos três parceiros e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), na quinta-feira, durante a visita presidencial a Copenhague, e prevê cooperação para tentar acelerar o processo. Até a última sexta-feira, no entanto, os detalhes do acordo ainda não haviam sido divulgados pelo governo brasileiro.
Hoje, os envolvidos no desenvolvimento da tecnologia calculam que serão necessários ainda mais quatro ou cinco anos para que a produção do etanol de segunda geração chegue ao ponto de ser viável economicamente.
“Mas estamos completamente confiantes de que isso vai acontecer. E, quando acontecer, o Brasil poderá mais que dobrar a produção”, afirmou ao Estado o presidente da Novozymess mundial, Steen Riisgard. “É muito provável que o Brasil seja o primeiro lugar do mundo onde o etanol de segunda geração seja produzido.”
Ao contrário da atual produção, o etanol de segunda geração é produzido a partir dos restos da produção, como palha de milho e arroz, cascas de café ou, no caso do Brasil, o bagaço da cana. O investimento tem dois pontos fortes: reaproveita as sobras e, por ser feito de restos, não necessita de plantações específicas para a produção - o que acabaria com o argumento de que se deixaria de plantar comida para fazer combustível.
O processo industrial para produção desse tipo de etanol já foi criado e testado pela DUT. Mas necessita de enzimas industriais específicas para quebrar a estrutura da planta e liberar os diversos tipos de celulose, que aí são transformados nos açúcares e no álcool.
As existentes hoje, fabricadas pela Novozymess, não são eficientes o bastante para o processo valer a pena economicamente. “Precisamos aumentar a eficiência e reduzir o custo. Ainda precisamos dividir por seis esse custo”, explica Riisgard. “Hoje o custo de um galão de etanol é de US$ 1,20. Precisamos chegar a 0,20”.
O interesse da empresa no Brasil é justamente pelo etanol brasileiro vir da cana. “Testamos diversos tipos de sobras, incluindo madeira de eucalipto. Tivemos sucesso em todos, mas a cana é a mais fácil de trabalhar”, explica Troels Hilstrom, um dos engenheiros do projeto de bioetanol da DTU.
O Brasil produz hoje cerca de 200 milhões de toneladas de bagaço por ano. A maioria é transformada em biomassa para produção de energia elétrica. A previsão de Riisgard é que as usinas brasileiras poderiam preparar o etanol normalmente, produzir mais usando o bagaço da cana e ainda usar o resíduo para gerar energia elétrica (O Estado de S.Paulo, 10/9/07)

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