A segunda revolução do etanol

Empresas disputam uma corrida tecnológica para produzir combustível a partir de bagaço da cana, capim e até lixo

Renée Pereira

Quem considera o etanol produzido de fontes primárias (como cana-de-açúcar e milho) uma revolução da agroenergia nem imagina o que vem pela frente. Dentro de alguns anos, os biocombustíveis também serão feitos a partir do bagaço da cana-de-açúcar, sabugo de milho, capim, casca de árvore, pneus e até lixo urbano. Para isso, os principais centros de inovação do mundo, financiados por governos e grandes empresas, como a petrolíferas BP e Shell, estão travando uma verdadeira corrida tecnológica.

Será o vencedor aquele que encontrar a rota mais viável para transformar os diferentes tipos de biomassa em etanol. Os primeiros litros do biocombustível já foram produzidos em escala experimental. Falta encontrar a fórmula perfeita para a produção em larga escala com custo competitivo aos combustíveis atuais.

No mercado, essa tecnologia tem sido chamada de segunda geração (o etanol feito de fontes primárias é de primeira geração) ou etanol de celulose. O processo consiste em usar enzimas, micro-organismos ou ácidos para separar os açúcares existentes na biomassa e a partir daí produzir o combustível. O potencial é elevado, mas ainda há dúvidas em relação ao tempo para transformar os testes em produção comercial.

Todos os avanços e desafios da nova tecnologia serão expostos a partir de amanhã na segunda edição do Etanol Summit, que contará com cerca de 130 palestrantes de várias partes do mundo, incluindo o ex-presidente americano Bill Clinton, um entusiasta dos biocombustíveis. Eles darão um panorama de quando essa tecnologia poderá sair do papel.

Nos Estados Unidos, as pesquisas do etanol de segunda geração começaram há algum tempo e foram reforçadas pela nova política energética que estabelece limite para o uso do etanol feito a partir do milho com tecnologia convencional. A produção, que hoje está em 40 bilhões de litros, poderá chegar a 57 bilhões. Para complementar a oferta, que atingiria 136 bilhões de litros em 2022, seria usado o etanol de segunda geração e outros biocombustíveis, afirma o presidente da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), Marcos Jank.

Embora o consumo de combustível do país tenha caído por causa da crise econômica, grandes empresas mantiveram suas pesquisas. Até porque a meta do governo americano é produzir no ano que vem cerca de 400 milhões de litros de combustíveis de segunda geração. Ásia e Europa também desenvolvem tecnologias, que estão sob segredo industrial. Além do discurso sobre o aquecimento global, o objetivo da busca por um novo biocombustível é diminuir a dependência do petróleo.

No Brasil, por causa do enorme potencial de crescimento do etanol de primeira geração, a corrida tecnológica ainda está um pouco mais lenta e com orçamentos mais modestos comparados aos do mercado externo, que tem irrigado as pesquisas científicas com bilhões de dólares. Apesar disso, alguns empreendedores acreditam que possam sair na frente para manter a liderança brasileira no mundo dos biocombustíveis.

"O etanol de segunda geração, a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar, teria capacidade para dobrar o volume de etanol produzido no País com a mesma área plantada", diz Marcos Jank, destacando que este ano o setor alcançará 27 bilhões de litros. Foi de olho nesse potencial que o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) firmou uma parceria com a dinamarquesa Novozymes Latin America, especialista em enzimas industriais.

Juntos, inauguraram em janeiro uma usina piloto, com capacidade para produzir 200 litros de etanol de segunda geração. A rota tecnológica usada chama-se hidrólise enzimática, em que as moléculas de celulose são transformadas em açúcares por meio de enzimas.

Hoje o grande desafio é evitar que essas enzimas encareçam demais o produto final, diz o presidente regional para América Latina da Novozymes, Pedro Luiz Fernandes. Segundo ele, a tecnologia já existe, mas, além do custo, ela exige aperfeiçoamentos e ajustes. "Em meados de 2010, esperamos apresentar um modelo financeiro para vender essa tecnologia."

Um dos ajustes que ela terá de fazer até lá refere-se ao tempo que a enzima leva para transformar a celulose em açúcar. "O ideal seria ter um ciclo de 24 horas, como ocorre no etanol tradicional", afirma o diretor superintendente do CTC, Nilson Boeta. A expectativa dele é que em três ou quatro anos a tecnologia esteja dominada, para produção em escala industrial.

O executivo acredita que, superada a fase de aperfeiçoamento tecnológico, o Brasil terá enorme competitividade no etanol de celulose, já que a matéria-prima não exige logística. "Ela está ali, na própria usina. Nos Estados Unidos, a palha e o sabugo do milho ficam no campo."

Na Dedini, líder na fabricação de equipamentos para o setor sucroalcooleiro, a rota tecnológica adotada é a hidrólise ácida. Com estudos iniciados há cerca de 20 anos, a produção do etanol de celulose já passou pelos estágios de laboratório e piloto. Hoje a empresa espera firmar alguma parceria para iniciar uma fase semi-industrial. "A fabricação do etanol já existe. O problema é o custo", diz o vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da empresa, José Olivério. Segundo ele, o combustível custa, pelo menos, o dobro do etanol comum.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também entrou na corrida pela nova tecnologia do etanol de celulose e desenvolveu um tipo de enzima para o processo. Os testes já devem entrar em escala de demonstração (antes da escala industrial). "Tínhamos duas alternativas: comprar a tecnologia ou entrarmos numa agenda de desenvolvimento. Ficamos com a segunda opção", disse o chefe-geral da Embrapa, Frederico Durães. Segundo ele, a Embrapa fechou acordo com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para criar uma Empresa de Propósito Específico (EPE) para desenvolver negócios nessa área.

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