2009-2010 - Setor sucroenergético frente à crise mundial

Tarcizio Goes¹
Renner Marra²

Em abril, na região de Ribeirão Preto começou mais cedo a safra sucroenergética 2009/2010 porque quase 28 milhões de toneladas da safra de 2008 não puderam ser cortadas em algumas áreas do Centro Sul e as mesmas permaneceram no campo devido o excesso de chuvas e, o cronograma da moagem de algumas unidades sofreram atrasos em função da estruturação das usinas. Mesmo com esses pequenos problemas em 2007, a área cultivada na safra foi de 7,1 milhões de hectares e em 2008, a área aumentou para 9,4 milhões de hectares e a produção registrou um aumento de 18%.
Estimativas do IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2008) apontam que a área plantada em 2009 será de 9,6 milhões de hectares e a produção de 674,7 milhões de toneladas. A Revista Canavieiros, em março de 2009, baseada em informações da DATAGRO previu um crescimento de aproximadamente 7% na safra 2009/2010 para o Centro-Sul. De acordo com essas informações, a demanda total por álcool (mercado doméstico e exportações) deve ficar ajustada à oferta. A demanda deve atingir 27,82 bilhões de litros de álcool no Brasil e 24,8 bilhões de litros no Centro-Sul. Ainda segundo a DATAGRO, a queda nas exportações será compensada pelo aumento da demanda interna por etanol, pois a previsão é de que existam dois milhões de carros flex no País em 2009. Outro fator a ser considerado é o valor da remuneração da safra de cana. A estimativa é de crescimento entre 10% a 15% em relação à safra anterior.
Em 2008, havia uma grande euforia no setor. A venda de carros flex passou a representar 90% do total de carros vendidos no País. O consumo de álcool combustível superou o consumo de gasolina. O fortalecimento do mercado interno ocorreu em função do aumento da demanda por etanol para atender a frota com motor flex e as previsões otimistas de exportação do etanol para diversos países, fizeram o setor apostar alto. Grandes investimentos foram feitos por grupos empresariais, boa parte com base em recursos externos. Novas parcerias foram estabelecidas com grupos internacionais, envolvendo grandes volumes de investimentos. Observadores analisando o crescimento e o desempenho do setor sucroalcooleiro, utilizaram dados e previsões feitas pela UNICA-União Nacional dos Produtores de Cana-de-Açúcar, que sinalizavam crescimento substancial do setor, com a instalação de 30 novas usinas em 2008/2009, 23 usinas em 2009/2010 e investimentos previstos para os próximos 6 anos de US$ 17 bilhões. (Goes et. all, 2008) . Hoje estes números estão sendo totalmente revisados.


A crise mundial e o setor sucroenergético


A crise financeira desencadeada nos Estados Unidos a partir do subprime, começou a se agravar no primeiro semestre de 2008. Em julho e agosto a situação assumiu maiores proporções. O American Home Mortage Investiment decretou falência no início de agosto e a crise começou a se espalhar por países da Europa, da Ásia e do Pacífico, assumindo características de uma crise mundial. A situação tornou-se mais grave em setembro com a falência do Lehman Brohters, aumentando o risco sistêmico. (Carta Conjuntura IPEA, 2008). As lideranças técnicas e empresarias do setor sucroenergético brasileiro reuniram em Sertãozinho, São Paulo, em fevereiro de 2009, onde discutiram as questões da crise no Seminário Cenários para o Setor Sucroenergético na Safra 2009/2010 -Face a Crise Mundial e concluíram que o setor sucroenergetico já arcava com elevado nível de endividamento antes da crise e com a nova crise internacional, muitas empresas brasileiras sofreram prejuízos com operações envolvendo derivativos financeiros ligados à variação da taxa de câmbio
No Brasil, no setor sucroenergético os problemas começaram a se evidenciar: o setor que já arcava com elevado endividamento antes da crise, 263% na mediana e topo de 1200% (Matias. 2009), começou a sentir os efeitos. As fontes de financiamento internas e externas escassearam, o custo financeiro aumentou. Muitas usinas tiveram grandes perdas cambiais e aumentaram muito o seu endividamento. Captaram recursos para financiamento com taxas de cambio em dólar nos valores entre a 1,56 de reais a 1,60 reais e passaram a dever em dólar a 2,40 de reais. A (fig. 1) mostra a evolução da taxa de câmbio de janeiro de 2008 a março de 2009.



Figura 1 – Evolução da taxa de câmbio (R$/US$) Fonte: Banco Central do Brasil. 2009
Os impactos da crise para o setor sucroenergético podem ser enumerados como:
• escassez de financiamentos internos e externos;
• elevado custo financeiro dos recursos para investimento;
• perdas cambiais e elevado endividamento de algumas usinas e;
• diminuição das exportações de etanol em função da retração da demanda
no exterior.


A opinião dos analistas econômicos é de que a característica da crise é estrutural e conjuntural. Segundo Matias 2008, “a crise vivida no momento pelo setor sucroenergético, tem característica estrutural/empresarial e decorre fundamentalmente do elevado endividamento do setor em função da sua forte expansão”. Afirmam que mesmo se não houvesse surgido a crise, o setor enfrentaria problemas financeiros por algum tempo.
Para reverter essa situação e enfrentar a crise atual, o setor precisa se reorganizar e buscar no planejamento estratégico setorial uma visão de longo prazo que determine as competências essenciais que mereçam investimentos, uma vez que os mesmos terão que ser seletivos. A estrutura das dívidas das empresas precisa ser redimensionada para longo prazo. Estratégias como o fortalecimento financeiro de grupos empresariais por meio de fusões, capitalização das empresas e implantação de governança corporativa nas empresas, com participação dos credores, visando gerar confiança no mercado investidor serão escolhas importantes.
O governo deverá criar linhas de crédito de longo prazo, para que o setor possa ser recapitalizado até por causa da importância história e econômico do setor na economia nacional. A cana-de-açúcar tem 5 séculos de história no cenário econômico social e político brasileiro e o setor suroalcooleiro hoje chamado setor sucroenergético assumiu o papel de gerador de energia. O setor sucroenergético já passou por várias crises, mas sempre achou o caminho da superação e continua desempenhando um papel de grande importância para o crescimento e fortalecimento da economia nacional. Dessa vez não será diferente, até porque, a cana-de -açúcar vive um momento histórico e promissor diante da grande valorização do etanol como biocombustível nos mercados interno e externo e o seu alto nível de modernidade, experiência de produção e competitividade lhe darão suporte para a superação.
Medidas adequadas e importantes já estão sendo postas em prática, visando reverter a situação atual: - A fusão de grupos empresariais, visando a capitalização e o escalonamento das dívidas num horizonte de longo prazo já está acontecendo entre grupos nacionais estrangeiros. Matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, em março de, 2009, comenta que a situação de aperto pela qual passam algumas usinas, desperta a atenção de investidores externos que estão altamente interessados e apostando na expansão internacional do etanol e que o setor sucroenergético vive um momento atípico. Enquanto existem vários casos de endividamento de usinas agravados pela escassez de crédito,por outro lado, o agronegócio da cana-de-açúcar está aportando bilhões de dólares, vislumbrando um mercado com grande potencial dentro e fora do País.
Existem algumas oportunidades que vislumbram a superação, como a criação de linhas especiais de crédito. O BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Social- criou uma linha especial de crédito para financiamentos ao setor e já foram utilizados no primeiro bimestre de 2009 o montante de 1,5 bilhão de reais para as usinas. A previsão é de que estes recursos cheguem a 7 bilhões de reais em 2009. A maior parte desses recursos têm sido utilizados para financiar fusões e aquisições. Outras medidas importantes ocorreram recentemente como a do Conselho Monetário Nacional – CMN- que acaba de anunciar em reunião extraordinária, em abril de 2009, a liberação de 12,3 bilhões de reais em empréstimo dos bancos oficiais para capital de giro da agroindústria e estocagem de etanol com juros subsidiados. Desse total, 10 bilhões de reais serão destinados a agroindústria, incluindo fabricantes de máquinas agrícolas e cooperativas. Além disso, o CMN- aprovou também a liberação de 2,3 bilhões de reais para os produtores de etanol, sendo que 1,3 bilhão de real virá do BNDES e 1,0 bilhão de real do Banco do Brasil, com a finalidade de financiar a estocagem de 5 bilhões de litros de etanol que corresponde mais ou menos a 10% da produção anual desse produto. O financiamento de estocagem, a warrantagem, é uma medida muito importante como forma de reduzir a grande volatilidade dos preços do etanol, principalmente nos períodos de entressafra. Os juros cobrados serão de 11,25% ao ano para pagamento em 2 anos e com 1 ano de carência.
A Petrobras Biocombustíveis (PBIO) anunciou para o período 2009/2013 investimentos da ordem de 2,4 bilhões de reais, dos quais 1,9 bilhões de reais serão destinados ao etanol. Desse total de 2,4 bilhões de reais, 945 milhões de reais serão investidos em 2009, 91% serão investidos no Brasil e 9% no exterior. A (fig 2.) mostra o volume total de produção de etanol com a participação da PBIO.



Gráfico 2 – Estimativas de produção de etanol
Fonte: Petrobras.2009
Perspectivas de Superação
Apesar da crise mundial, as perspectivas para o setor sucroenergético na safra 2009/2010 são boas, em função de alguns fatores determinantes: As exportações de açúcar não sofreram queda acentuada. Com a retração da produção de açúcar na Índia, que passa de exportador à condição de importador e a demanda aquecida no mercado internacional, os preços do açúcar estão em ascensão, tendo experimentado um aumento de 12,3% nos primeiros meses de 2009, passando de 12,31 em dezembro de 2008 para 13,83 cents per pound em março2009 conforme dados da Bolsa de Nova Iorque, e isto, com certeza, beneficiará o setor.


Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento- MAPA informam que em março de 2009 o valor das exportações do complexo sucroenergético apresentou crescimento de 27,8 %, passando de 374,0 milhões de dólares para 477,9 dólares. Este crescimento é resultante das exportações de açúcar, que cresceram 63,4% no mês de março em comparação com o mesmo período de 2008, atingindo a cifra de 406,9 milhões de dólares. Houve um aumento tanto no preço como nas quantidades exportadas do açúcar quanto do álcool, respectivamente, de 14,6% e 42,6%. Já as exportações de álcool tiveram redução em dólares de 43,2%, totalizando 71,0 milhões dólares, o que ocorreu, fundamentalmente, devido a redução da quantidade exportada do produto, 43,6%.
Outros indicadores de boas perspectivas para o setor na safra 2009/2010, são: as demandas do mercado interno e o mercado externo para o etanol que deverão crescer significativamente. As exportações de açúcar deverão crescer, em função da demanda externa e dos preços dessa commoditie. Em função disso é que o mix de moagem das usinas – (percentual de cana-de- açúcar que a usina destina para a fabricação de açúcar ou etanol em função da demanda), nesta nova safra deverá ser de 56,5% para a produção de álcool no Brasil e 58,2% no Centro-Sul. Na safra passada, 58,46% da cana foi destinada à produção de álcool no País e, no Centro-Sul atingiu 60,26%.
Segundo alguns analistas, a desvalorização do real poderá incentivar as exportações, mesmo tendo-se em conta a retração na demanda em função da crise mundial. A vantagem comparativa do etanol brasileiro e a imperiosa necessidade evidenciada pelo mundo em diminuir a emissão de gases poluentes em favor das condições climáticas, que por sua vez implicam necessariamente numa diminuição crescente da utilização de combustíveis fósseis garantem a tendência do uso do álcool combustível. Outras questões como: a previsão de exaustão das fontes de petróleo nos próximos 40 anos; o nível tecnológico agrícola e industrial já consolidado e a competitividade do setor em relação ao resto do mundo e as medidas de políticas governamentais que estão sendo adotadas, levarão o setor sucroenergético brasileiro a obter bons resultados nesta safra 2009/2010 e garantem a sua manutenção como um dos mais importantes setores da economia do Brasil.

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