Pesquisas de multinacionais ameaçam liderança do etanol brasileiro



Marinella Castro - Estado de Minas
Bilhões de dólares estão irrigando pesquisas científicas nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão em busca do chamado etanol de segunda geração. O combustível alternativo, produzido a partir de resíduos agroindustriais, é uma aposta de custo competitivo que em breve vai disputar mercado com o etanol da cana-de-açúcar. O surpreendente avanço das pesquisas pode antecipar a utilização em escala para antes de 2018, prazo inicial, demonstrando que países como os Estados Unidos querem produzir seu próprio combustível alternativo, em vez de importá-lo em larga escala. A busca mundial por energia alternativa e independência estratégica, aliada a barreiras tarifárias, abre interrogações se de fato o etanol brasileiro vai cruzar o oceano, consolidando-se como combustível internacional.

Ao redor do mundo, pelo menos 15 empresas de petróleo e biotecnologia trabalham em centros avançados de pesquisas em busca do etanol de segunda geração, um combustível complementar que pode reduzir a dependência dos países, como os Estados Unidos, que enfrentam limitações no volume do álcool produzido a partir do milho e, por isso, devem precisar importar o combustível de mercados como o brasileiro caso não encontrem outras fontes de energia.

Os investimentos de milhões de dólares mostram que a aposta em um novo combustível líquido é mesmo para valer. Entre os gigantes estão empresas sediadas nos Estados Unidos, como Texas Pacific Group, incorporada à KKR por US$ 45 bilhões, e a Amyris Biotechnologies, que investe cerca de US$ 20 milhões em pesquisas sobre o produto de segunda geração. Outros gigantes como as americanas Diversa e Celunol e Dupont e a British Petrol, do Reino Unido, avançam na corrida pelo combustível de segunda geração, assim como a canadense Husky Energy. A americana Chevron firmou parceria com o Departamento de Energia dos Estados Unidos com investimentos de nada menos que US$ 1,5 bilhão em projetos de energia renovável.

A velocidade em que caminham as pesquisas surpreende especialistas. “Realmente essas empresas estão investindo pesado e evoluindo rapidamente para as plantas de teste. O salto para a produção em massa é muito rápido”, aponta Mauro Lopes, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Na opinião do especialista, o etanol de segunda geração vai ser mais uma fonte de energia a competir com o etanol da cana-de-açúcar, já que o produto brasileiro é viável economicamente, mas enfrenta barreiras tarifárias e uma logística cara. Outra questão é que os investimentos nacionais em pesquisas avançadas ainda não fazem frente aos gigantes internacionais. No Brasil, uma das matérias-primas utilizadas para obtenção do combustível de segunda geração encontra destino mais rentável. “No mercado nacional é mais vantajoso utilizar o bagaço de cana para cogeração de energia”, comenta.

Os tempos atuais são marcados por uma verdadeira cruzada em busca de formas independentes de energia que inclui ainda o outro lado do mundo. “O Sudeste asiático também vai tentar fazer seu próprio etanol”, comenta o pesquisador do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Manoel Régis Lima Verde. Ele aposta no etanol como o combustível número 1 do mercado interno, mas quanto ao mercado internacional considera que os países devem se manter com alto índice de independência. “É possível que 70% do biocombustível mundial seja produzido pelo próprio país consumidor, assim como ocorre com o açúcar”, compara.

Desafio para o Brasil


Na opinião de especialistas, o combustível de segunda geração tem potencial para prejudicar as exportações brasileiras caso o país não acompanhe o ritmo das pesquisas mundiais, perdendo competitividade. O Brasil tem potencial para produção da segunda geração, já que pode aproveitar a estrutura existente das usinas, no entanto, necessita de investimentos para tornar o produto economicamente viável. “O Brasil pode ter um produto competitivo desde que todo o recurso disponível não seja investido no petróleo, prejudicando as pesquisas no desenvolvimento de fontes de segunda e terceira geração”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Segundo o governo federal, a Petrobras deve produzir no ano que vem 4 milhões de litros do combustível avançado, como primeiro teste. No entanto, a empresa não divulga o montante dos investimentos nem prazos para a utilização do produto em escala industrial.

A expectativa do setor é de que a COP 15, reunião das Nações Unidas sobre meio ambiente, no mês que vem, em Copenhage, estabeleça novas regras para o setor de combustíveis líquidos, abrindo a possibilidade de retomada do mercado externo para o etanol brasileiro, que deve travar batalhas cada vez mais árduas. Como aponta David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o etanol terá que competir ainda com as novas opções de combustível lançadas no mundo, como é o caso da proposta japonesa de produção do carro elétrico.

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