Shell a dona do etanol no mundo ?


Na manhã da quinta-feira 4, o presidente mundial da Shell, Peter Voser, reuniu jornalistas do mundo inteiro em Londres para anunciar os resultados da companhia. Resultados muito ruins. O lucro da maior empresa de petróleo do planeta caiu 69% no ano passado – despencou de US$ 31,4 bilhões para US$ 9,8 bilhões. Como reflexo disso, a multinacional anglo-holandesa anunciou a demissão de mil funcionários. O discurso de Voser parecia um rosário de lamentações. Mas, antes de encerrar o encontro, o executivo divulgou uma única informação positiva: a de que a Shell entrará de forma agressiva no mercado global de etanol, numa decisão que envolve diretamente o Brasil. Dois dias antes, na segunda-feira, a Shell e a Cosan, maior empresa brasileira de açúcar e álcool, uniram forças criando uma joint venture de R$ 40 bilhões para produção e distribuição de etanol. E a operação foi saudada com entusiasmo pelo mercado. “É um negócio fantástico, e que faz todo o sentido para a Shell”, avaliou Peter Heijen, um analista do setor de petróleo, baseado em Amsterdã.

Neste caso, pode-se dizer que o que foi bom para a Shell também será espetacular para o Brasil. Mais do que uma simples união entre duas empresas privadas, o negócio tem potencial para revolucionar o mapa energético global – com vantagens para o País. A razão: durante anos, o governo tentou abrir os mercados internacionais para a exportação do álcool, mas esbarrou em barreiras protecionistas dos países desenvolvidos. A partir de agora, o principal aliado do País nesse esforço será uma companhia presente em todos os continentes, com mais de 40 mil postos de distribuição de combustíveis e dona de uma receita anual de US$ 278 bilhões, além de uma marca forte, respeitada e consolidada – algo que o etanol ainda não havia conquistado. “Podem apostar: vamos fazer do etanol um combustível global”, disse, em Londres, Mark Williams, diretor da Shell para a área de biocombustíveis. “A estratégia mundial da Shell nessa área passará definitivamente pelo etanol brasileiro”, reforçou à DINHEIRO o presidente da petrolífera no Brasil, Vasco Dias. O empresário Rubens Ometto, dono da Cosan, definiu a associação entre as duas empresas como a formação de um dream team, o time dos sonhos do etanol.
O desembarque das gigantes do petróleo no Brasil é parte de uma tendência irreversível. Num mundo marcado pelo aquecimento global e por reservas cada vez mais escassas de óleo e gás, as empresas de petróleo vêm sendo forçadas a perseguir metas ousadas de redução de emissão de carbono. E, apenas dois dias depois da associação entre a Shell e a Cosan, uma outra notícia mexeu com os ânimos do setor sucroalcooleiro. Na quarta-feira 3, a Agência Americana de Proteção Ambiental classificou o etanol de canade- açúcar como um combustível limpo, que reduz a emissão de dióxido de carbono (CO2) em 61%, quando comparado à gasolina pura. O etanol de milho, o mais consumido nos EUA, reduz a emissão em apenas 21%. O anúncio abre um horizonte de exportação de até 40 bilhões de litros para os Estados Unidos até 2020 – o que é significativo, pois a produção atual do Brasil é de 28 bilhões de litros. “Tivemos as duas melhores notícias para o etanol brasileiro em toda a história. Com a certificação do álcool de cana nos Estados Unidos e a parceria entre a Shell e a Cosan, ganhamos o passaporte para o mercado global”, disse à DINHEIRO o executivo Marcos Jank, presidente da Unica, a entidade que representa o setor sucroalcooleiro.

A empolgação de Jank se justifica. Os americanos, que utilizam uma mistura de 8% de etanol na gasolina, são os maiores consumidores mundiais de álcool, com 40 bilhões de litros por ano. Em 2022, com a adição obrigatória de 15% de etanol, estima- se que os Estados Unidos consumirão 136 bilhões de litros de álcool. “Estamos diante de uma perspectiva excepcional. Basta agora caírem as barreiras tarifárias”, disse Jank. Nos Estados Unidos, ainda existe uma tarifa de US$ 0,54 por galão, o que representa cerca de R$ 0,35 por litro. Mas agora, além do governo brasileiro, a própria Shell, que tem 14 mil postos em 49 dos 50 Estados americanos, tem interesse na queda da tarifa. “Eles serão embaixadores do etanol brasileiro”, aposta o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
O potencial de abertura de mercados internacionais para o etanol pesou na decisão de Ometto. Antes de negociar com a Shell, num namoro iniciado há mais de um ano e antecipado pela revista DINHEIRO, ele foi também procurado pela multinacional americana ADM, a maior produtora de etanol do mundo, mas que tem usinas concentradas em álcool à base de milho. Ometto recusou a oferta porque vislumbrou na Shell uma aliança estratégica. Na operação anunciada na semana passada, haverá duas empresas distintas. Uma de produção de açúcar e álcool, em que a Cosan terá 51% das ações e a Shell 49%. E a outra de distribuição de combustíveis, em que os papéis serão invertidos: a Shell com 51% e a Cosan com 49%. E nisso entram todos os postos da Esso que, há pouco mais de um ano, foram adquiridos pela Cosan por US$ 826 milhões. Outro aspecto revelado pela associação foi o excesso de endividamento da empresa de Ometto. No negócio, ele entregou 75% dos seus ativos. A Shell, por sua vez, assumiu uma dívida da Cosan de US$ 2,5 bilhões e colocou US$ 1,5 bilhão em dinheiro. “Eles entregaram tudo o que tinham no negócio; nós colocamos um fio de cabelo”, disse um graduado executivo da multinacional.

Com a operação, a Shell volta a brigar pelo segundo lugar no mercado de distribuição de combustíveis, com uma participação de 18,8%, muito próxima dos 19,4% do grupo Ultra/Ipiranga. A liderança folgada ainda é da Petrobras Distribuidora, com 37,6%. A vantagem comparativa, a favor da Shell, é o fato de ela ser a única com acesso direto ao etanol, o combustível mais usado no Brasil, conforme reconhece a própria Petrobras. “Posto de gasolina no Brasil deveria se chamar posto de álcool”, disse José Sérgio Gabrielli, presidente da companhia, à DINHEIRO. Essa constatação não significa que a empresa assistirá ao avanço da Shell de camarote. Uma das subsidiárias da companhia, a Petrobras Biocombustíveis planeja comprar dez usinas de álcool ainda em 2010 (leia ao lado). Da mesma forma, outras grandes empresas de petróleo olham para o Brasil com interesse crescente. É o caso da árabe Saudi Aramco, que avalia entrar no capital da Louis Dreyfus Commodities, empresa que recentemente comprou a usina Santelisa Vale e tem como sócio o bilionário saudita Wafic Said. “Todas as grandes empresas brasileiras de etanol acabarão nas mãos dos gigantes do petróleo”, disse à DINHEIRO, de Riad, na Arábia Saudita, o investidor Naji Nahas – ele próprio, um dos conselheiros do grupo Dreyfus. O fato é que, desde a semana passada, o etanol já não é mais brasileiro. É global.

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