Lodo de esgoto doméstico vira adubo de cana

Técnica desenvolvida na Universidade de São Paulo aumenta produção em 20% e elimina a necessidade do complemento de nitrogênio.

Apesar de ser rico em matéria orgânica, o lodo obtido durante o tratamento do esgoto normalmente é destinado aos aterros sanitários. Para reaproveitar o material, um pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveu uma técnica que utiliza o material recolhido na rede de esgoto doméstica como adubo para o plantio da cana-de-açúcar. Os resultados são animadores. Os testes mostram que o lodo dispensa a adição de nitrogênio no solo, reduz o uso de fósforo e ainda aumenta a produção em até 20%.

Engenheiro agrônomo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e doutor em agronomia pela USP, o pesquisador Cássio Hamilton Abreu Júnior conseguiu o lodo necessário para sua pesquisa, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na estação de tratamento de esgoto de Jundiaí, no interior de São Paulo. Já a pesquisa foi realizada em uma plantação de cana-de-açúcar na Fazenda Rio das Pedras.

Para realizar a pesquisa, Abreu Júnior contou com a ajuda de empresas e do governo. A Biosolo, especializada na elaboração de projetos de gestão ambiental, fez uma análise prévia do solo para estudar a quantidade de minerais, de umidade e outras características. Depois disso, a Opersan, que faz o tratamento de resíduos líquidos industriais, ajudou na higienização do lodo, que ficou pronto para a adubagem segundo as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão do Ministério do Meio Ambiente.
Já a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) acompanhou o processo de tratamento para garantir que doenças não sejam transmitidas à população. “Apesar de o lodo possuir matéria orgânica e nutrientes importantes para o crescimento das plantas, como nitrogênio e fósforo, também pode conter agentes infecciosos (como vírus e bactérias), metais pesados e compostos orgânicos”, afirma o pesquisador.
Os testes realizados em Jundiaí revelam que o lodo elimina a necessidade de fertilização no solo com nitrogênio e reduz o uso do fósforo em 30%. Mais importante, após a utilização do lodo houve um aumento de mais de 20% na produção da cana-de-açúcar. O pesquisador lembra que os resultados só podem ser obtidos com o material orgânico recolhido no esgoto doméstico. “Não usamos o lodo industrial porque nele há uma taxa de contaminação muito alta e, mesmo após tratamentos, não haveria como garantir a total isenção de toxinas”, diz.


A solução de um problema

Apesar dos resultados positivos, a técnica ainda tem alguns limitadores. A utilização do processo é garantida pelo Ministério da Agricultura mediante a entrega de um “plano de aplicação”, ou seja, devem ser apresentados estudos completos sobre o tratamento realizado no lodo e comprovado que todos agentes infecciosos foram eliminados. O problema é que todo o procedimento leva algum tempo para ser concluído. “O plano de aplicação pode levar anos para ser aprovado, o que muitas vezes inviabiliza seu uso na plantação”, diz Cássio. “Muitas empresas e agricultores não querem esperar tanto tempo”.
Para resolver o impasse, a Biosolo e a Opersan desenvolveram o chamado “composto de lodo”, um produto que o agricultor pode usar diretamente. Na fabricação é realizado um processo conhecido como compostagem, que mistura o lodo ao material orgânico (como restos de podas de árvores) e é controlada a degradação dos materiais orgânicos, para que os vírus e bactérias sejam eliminados. A mistura “compostada” permanece durante 50 dias em um galpão coberto sendo revolvida. A degradação orgânica gera calor e os agentes infecciosos são mortos quando a temperatura atinge 65º.

O composto de lodo já foi certificado pela Cetesb e pelo Ministério da Agricultura. Fernando Carvalho Oliveira, engenheiro agrônomo e proprietário da Biosolo, acredita que em breve deverá ser comercializado. Quanto ao custo do produto, o empresário diz que será menor do que o dos fertilizantes tradicionais. “Custará menos porque tem uma utilização específico, podendo ser usado apenas em grandes plantações”, afirma.

Fertilizantes vilões

Hoje, os agricultores são dependentes de produtos para deixar o solo mais fértil. Antes de plantar, eles complementam os nutrientes que faltam na terra através de fertilizantes. Segundo pesquisas do Instituto de Solo Agronômico de Campinas, as plantações de cana tiveram até 40% de dependência dos fertilizantes, que representa aproximadamente 40% do custo da cultura. “Em 2008, quando essa necessidade chegou ao auge, o custo para implantar a cultura atingiu quase 50%. Ano passado reduziu um pouco, mas não o bastante”, diz José Antônio Aprigio, pesquisador do Instituto.
A utilização do lodo de esgoto para fins agrícolas é estudada há quase 30 anos no Brasil. Em países da Europa, Ásia e nos Estados Unidos, ele já é bastante difundido como forma de diminuir a necessidade dos fertilizantes.

Fonte: IG

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