Novos Acordos

Suzano compra a britânica FuturaGene, especialista em genética de plantas; Dedini e Novozymes se juntam para etanol celulósico

Guilherme Gorgulho e Janaína Simões


A Suzano Papel e Celulose concluiu, no dia 13 de julho, a compra da empresa de biotecnologia FuturaGene, com sede na Grã-Bretanha e centros de pesquisa para culturas florestais e biocombustíveis na China e em Israel. Desde 2001, o grupo brasileiro mantinha acordo de cooperação tecnológica com a FuturaGene para o desenvolvimento de florestas geneticamente modificadas com fins comerciais.
Três dias depois, em 16 de julho, a Dedini Indústrias de Base, fabricante de usinas, anunciou que fechou parceria em pesquisa e desenvolvimento com a empresa dinamarquesa Novozymes, com o objetivo de encontrar uma solução comercial para a produção do etanol a partir da celulose de biomassa. O objetivo é desenvolver um processo que utiliza a rota da hidrólise enzimática a partir de resíduos da cana-de-açúcar até chegar ao estágio de implantação de uma usina de demonstração, integrada a uma refinaria. A Novozymes produz enzimas para o processo de hidrólise enzimática, que quebra a celulose e permite a extração dos açúcares da fibra da cana-de-açúcar.

Suzano e FuturaGene

O valor do negócio envolvendo a Suzano e a FuturaGene foi de US$ 82 milhões, segundo valores estimados pelos jornais Valor Econômico e O Estado de S.Paulo. Os campos de experimentos da FuturaGene localizam-se nos Estados Unidos, China, Israel e no Sudeste Asiático. A equipe de 30 pesquisadores da empresa britânica tem experiência em melhoramento genético do eucalipto e de outras culturas, como algodão e milho. De acordo com um documento enviado aos investidores da FuturaGene em 28 de maio, o portfólio da empresa inclui técnicas para modificação da parede celular de plantas visando ao aumento das taxas de crescimento, produtividade e processabilidade de fibras vegetais, e o estudo de estratégias biotecnológicas para aumentar a resistência das variedades a estresses ambientais, como seca e salinidade. Na área acadêmica, a empresa britânica mantém parcerias estratégicas e convênios com instituições dos Estados Unidos (Universidade Estadual do Oregon, Universidade Purdue e Universidade do Arizona), do Canadá (Universidade de British Columbia) e de Israel (Universidade Hebraica de Jerusalém).
A expertise da FuturaGene já é empregada em testes com florestas no Brasil pela Suzano — que detinha até então 7,4% de participação na empresa —, mas o grupo brasileiro ainda não produz comercialmente o eucalipto a partir de variedades geneticamente modificadas. A produção atual de papel e celulose no Brasil é baseada no melhoramento clássico, com clones de variedades que melhor se adaptaram às condições de solo e clima. No comunicado oficial, a Suzano destaca ainda que a aposta em novas tecnologias a partir da manipulação genética, além de permitir o incremento da produtividade florestal, o aumento da qualidade da fibra produzida e a criação de variedades mais resistentes a doenças, também contribui para a sustentabilidade, pois esse tipo de cultivo aprimorado exige menos recursos naturais e requer áreas de plantio menores.
A FuturaGene também desenvolve tecnologias voltadas para a bioenergia e os biocombustíveis. De acordo com o comunicado sobre a aquisição, a Suzano estuda a possibilidade de agregar novas culturas aos seus negócios, mesmo que não sejam no ramo de papel e celulose. "A Suzano vai avaliar qual o melhor modelo de negócio para cada uma dessas tecnologias e tomar as decisões de acordo com o grau de maturidade de cada uma, o que será preciso para desenvolvê-la até o ponto de comercialização e o alinhamento com a estratégia da empresa", informa. Entre as alternativas estariam a venda de tecnologia de cultivares geneticamente modificados ou a formação de joint venture com empresas de biocombustíveis, de acordo com informações do jornal Valor Econômico, em texto sobre a aquisição publicado no dia 14 de julho.
O diretor executivo de Estratégia e Novos Negócios da Suzano, André Dorf, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo em 14 de julho, previu que a decisão sobre esse modelo de negócio será tomada até o final de 2010. Ao jornal O Estado de S.Paulo, Dorf afirmou que a Suzano vai iniciar avaliações sobre a viabilidade de construção de uma biorrefinaria dentro de uma de suas fábricas de celulose e que já está em conversação com fornecedores dessa tecnologia. Essa planta fabril seria abastecida com o licor negro, um subproduto da fabricação de celulose.

Dedini e Novozymes

A Dedini, maior empresa fabricante de equipamentos para usinas e de usinas prontas para produção de açúcar e etanol no Brasil, se uniu à Novozymes, que estuda e produz enzimas para uso industrial, com o objetivo de avançar nas pesquisas relacionadas ao processo de hidrólise enzimática para produzir etanol a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. De acordo com comunicado oficial divulgado pela Dedini, José Luiz Olivério, vice-presidente de Tecnologia e Desenvolvimento da empresa, afirma que há cerca de dois anos a companhia busca parceiros para desenvolver uma solução em escala industrial. As empresas não divulgaram os investimentos que envolvem o acordo em P&D firmado nem como a tecnologia da Novozymes poderá ser embarcada nas usinas feitas pela Dedini. Inovação procurou a assessoria de imprensa da Dedini para falar com Olivério, mas não havia obtido retorno até o dia 23 de julho, data de fechamento desta edição.
Em fevereiro, a Novozymes anunciou o lançamento da primeira enzima comercial para produção de etanol. A empresa dinamarquesa está particularmente interessada no potencial do mercado brasileiro para venda das suas enzimas, já que o País ainda não aproveita o bagaço e a palha para gerar mais etanol, e tem planos de expandir a produção do biocombustível sem ampliar a área de cana plantada, usando os resíduos da cana.
A Dedini estuda desde meados dos anos 1980 o processo de hidrólise ácida, que usa ácido diluído para quebrar as fibras do bagaço da cana, o que auxilia no processo de extração dos açúcares presentes na celulose da planta. Já registrou patentes para o processo, chamado Dedini Hidrólise Rápida (DHR). Tem uma planta-piloto operando em Pirassununga (SP) para testar o processo de hidrólise ácida, mas não chegou na escala comercial. Questões de custo e engenharia continuam sendo empecilho para a Dedini no desenvolvimento dessa tecnologia. Já o grande problema da tecnologia da hidrólise enzimática ainda é o custo de produção, muito acima ainda do custo para produzir o etanol como é feito hoje no Brasil, por meio da fermentação da sacarose presente no caldo da cana.

Mais sobre a Suzano

A produtividade de madeira para celulose cresceu mais de 80% nas últimas três décadas no País, baseada principalmente no melhoramento clássico, segundo dados da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa). Em 1980, a produtividade média do eucalipto era de 24 metros cúbicos por hectare por ano; em 2009, esse número chegou a 44,2 metros cúbicos por hectare por ano. A Suzano espera ampliar essa marca com a pesquisa em biotecnologia. O esforço de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa no País inclui 45 pesquisadores, um centro de tecnologia em Itapetininga (SP) e convênios com seis universidades.
Com quatro fábricas no Estado de São Paulo e uma na Bahia, a Suzano pretende ampliar sua produção de papel e celulose em 4,3 milhões de toneladas por ano, alcançando, em 2015, a marca de 7,2 milhões de toneladas. Para cumprir este plano, deverão ser construídas mais duas linhas de produção no Maranhão e Piauí e uma terceira em local ainda não confirmado, informa a empresa na sua página na internet.

Fonte: Inovação Unicamp

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