Brasil e China debatem captura de carbono e biocombustível

BRASIL CHINA[1]

Um dos maiores desafios no esforço mundial contra o aquecimento global é o desenvolvimento de tecnologias capazes de executar com eficiência a captura e o armazenamento do carbono do carvão.

 

 

O tema foi a pauta do segundo painel, no dia 24, do workshop promovido pelo Centro China-Brasil de Mudanças Climáticas e Energia, uma parceria da Coppe/UFRJ com a Universidade de Tsinghua, de Pequim, e do qual participaram representantes da MPX, Petrobras
e Associação Brasileira de Carvão Santa Catarina.
O diretor da CoppeUFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, considerou altamente produtivo o encontro. Pinguelli ressaltou que propostas concretas foram apresentadas, além de associações objetivas entre as empresas participantes. “Estamos avançando nesse estreitamento com os chineses. O próximo passo será a realização de uma reunião na China, no mês de outubro, na qual levaremos as opiniões e experiências mostradas neste evento”, afirmou.
Captura de Carbono
Apesar dos intensos trabalhos de pesquisa para a captura e armazenamento de carbono no campo científico (CCS – sigla em inglês), o que se tem na prateleira para consumo imediato pelo mercado ainda são métodos considerados caros e de relativa eficácia. Na maioria dos casos, o preço final da energia pode aumentar em 60% ou 70% e o nível de captura, em geral, fica apenas em torno de 20%.
Para o professor da Coppe/UFRJ Alexandre Szklo, especialista no tema, um dos caminhos é priorizar o método físico de CCS em detrimento do químico, atualmente utilizado em maior escala no mundo. “No sistema físico que estamos trabalhando na Coppe, a proposta é a troca para um sistema a vapor, em que o carvão é gaseificado e é feita a absorção física”, explica o professor. Num primeiro momento, este processo foi estudado tendo como matéria-prima o carvão colombiano, considerado um produto de melhor qualidade. “Agora vamos aplicar o mesmo método no carvão brasileiro, em que o processo se torna mais difícil por conta do insumo não ser tão bom quanto o do nosso vizinho’, comenta Szklo.
O professor explicou ainda que o modelo da matriz energética brasileira nos dá uma vantagem em relação aos países do hemisfério norte. “Por não termos urgência na aplicação deste tipo de energia, podemos esperar que os estudos indiquem tecnologias mais eficazes para aplicarmos em nossas futuras plantas”, disse Szklo. Já a maioria dos países acima da linha do equador tem o modelo atual estruturado e as possibilidades de mudanças são mais remotas.
Atualmente, o grupo de pesquisadores coordenado pelo professor Szklo trabalha numa parceria da MPX com a Coppe. O executivo da MPX, Mauricio Moszkowicz, apresentou projetos em desenvolvimento pela empresa, como as três usinas de carvão que estão em construção no Nordeste do País. “Além dessas usinas, outros dois projetos similares estão em estudo com previsão de serem concluídos em 2015”.
Moszkowicz destacou o empenho da empresa em desenvolver projetos em Pesquisa e Desenvolvimento, em parceria com universidades. Em conjunto com a Coppe, participa de estudos na área de CCS e desenvolve iniciativas em co-geração de energia por meio da biomassa de carvão, além de estudar o potencial energético das microalgas. “Nesta área temos uma parceria com a Universidade de Valparaíso, no Chile, para fomentar novos projetos e estudar os ciclos completos dessas algas”, disse.
Já o representante da Petrobras, Alberto Sampaio, ressaltou os projetos da companhia de petróleo na captura e armazenagem de CO2. Um programa inovador apresentado foi o projeto-piloto de Miranga, na Bahia, que injeta cerca de 370 toneladas de carbono por dia em um campo marítimo. A intenção deste projeto é criar uma usina de processamento para estudar os diferentes tipos de separação de CO2. “Nosso desafio é dominar a técnica para separar e armazenar o enorme volume de CO2 proveniente dos campos offshore. Com o pré-sal, a complexidade será ainda maior”, concluiu Sampaio.
Biocombustíveis: a caminho da terceira geração
A manhã do segundo dia do Workshop Mudanças Climáticas e Energia, promovido pelo Centro China-Brasil, dia 24, teve como tema tecnologias para o desenvolvimento de biocombustíveis. O sub-aproveitamento do etanol, mesmo os considerados de primeira geração, e o potencial dos de segunda e terceira, que num futuro próximo devem ganhar escala industrial, são apontados como a solução do maior dilema que envolve a produção de biocombustíveis: competir com os grãos destinados a cadeia alimentar.
“Não precisamos de mais terra, a biomassa excedente da nossa produção já temos. O que precisamos é de caldeiras mais eficientes e de mais tecnologia”, afirmou o executivo da Associação Brasileira de Cana de Açúcar – Única, Luiz Fernando Amaral. “Ou seja, a matéria-prima para aumentar significativamente o volume de etanol já existe, resta os laboratórios apontarem a maneira mais viável de aproveitá-la.”
Neste sentido, a professora do Instituto de Química da Coppe/UFRJ, Elba Bon, apresentou o projeto de Biomassa de Etanol, em que serão investidos US$ 5 milhões. A expectativa é que se desenvolva enzimas capazes de executar com maior eficiência o processo de catalização do bagaço e da palha da cana-de-açucar “Temos muita matéria-prima, apenas no Brasil, são 85 milhões de toneladas por ano de resíduo para etanol de segunda geração”, disse Elba Bon.
Para o Brasil, o etanol é uma vocação natural, para os chineses o produto a cada dia torna-se uma alternativa vital. Em apenas três anos (2007-2010) o consumo de petróleo dobrou na China, saltando de 100 milhões de toneladas para 200 milhões de toneladas ano. O aumento da demanda tem como responsável a expansão do mercado de carros leves. Neste item, o gigante asiático superou os Estados Unidos, de janeiro a junho deste ano foram nove milhões de carros vendidos, a expectativa é chegar dezembro com 16 milhões.
O professor Dehua Liu, da Universidade de Tsinghua, em Pequim, destacou que mais do que petróleo a China precisará encontrar soluções alternativas na área de combustíveis para abastecer esse mercado que só faz crescer. Um dos projetos desenvolvidos pelos chineses é a produção de etanol para uso em carros leves. O programa de etanol chinês começou em 2001 e hoje já possui cinco usinas. “Nós utilizamos principalmente milho e trigo para produzir o combustível, mas também
temos pesquisas com mandioca e outras sementes”, disse. Ainda segundo o professor, existe um princípio de não concorrência entre grãos para produção energética e grãos para a indústria alimentícia.
Outro projeto em estudo na universidade chinesa é para a produção de biodiesel. Apoiado pelo Governo chinês, o programa conta com 50 plantas de biodiesel em todo o país. Além disso, uma floresta foi criada para atender exclusivamente a produção de bioenergia. Com isso, a China quer se tornar referência na área. Liu destacou a tecnologia para produzir biodiesel baseada no uso de uma enzima, a lípase, como catalisador na geração de energia a partir de um processamento que chamou deverde, ou seja, ecologicamente ainda mais correto. A tecnologia já atrai a atenção de outros países. “Os Estados Unidos e a Alemanha já licenciaram nosso
processo”, afirmou o professor, demonstrando o caráter inovador da pesquisa chinesa.
No próprio evento foi dado mais um passo importante que reforça a parceria entre a Coppe e a Universidade de Tsinghua. O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli, e o diretor da Univesidade chinesa, Jiankun He, inauguraram o espaço do Centro China-Brasil dentro da Coppe/UFRJ. A parceria já conta com um escritório em Pequim.


Fonte: PRINT COMUNICAÇÃO

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