A Petrobras Verde !

Alan Kardec

PRESIDENTE DA RÉCEM CRIADA Petrobras Biocombustíveis, braço com o qual a estatal brasileira pretende alcançar uma fatia significativa do crescente mercado internacional de biocombustíveis, em entrevista exclusiva à TN Petróleo Alan Kardec confirma que a nova empresa usará como principal estratégia buscar parcerias que nos garantam mercado externo, sem perder de vista um de seus principais desafios: ampliar a presença da agricultura familiar no processo produtivo de biocombustíveis.

Enfático quanto ao modelo a ser adotado, Kardec afirma que o projeto das usinas da Petrobras Biocombustíveis para produção de biodiesel está diretamente atrelado à parceria com a agricultura familiar e a busca da sustentabilidade econômica, social e ambiental. “A meta é desenvolver parcerias com cerca de 80 mil agricultores familiares para o fornecimento de 160 mil toneladas de grãos de oleaginosas por ano”, adianta.

Ciente de que o produto brasileiro precisa atender várias exigências para ganhar novos mercados, Kardec cita os Complexos Bioenergéticos (CBios) como fonte para a produção de etanol de terceira geração, destinado à exportação, e lembra que a proposta da empresa é atingir a produção de 4,75 bilhões de litros de etanol destinados ao mercado internacional. “Para isso, pretendemos construir 20 Cbios”, explica.

Lembrando que as atividades de logística e comercialização de biocombustíveis continuam com a Petrobras, Alan Kardec não vê motivo para o temor manifestado por alguns empresários que, na época da criação da empresa, chegaram a falar em “estatização” do setor. “Muito pelo contrário”, diz Kardec, “a entrada da Petrobras Biocombustível no mercado de biocombustíveis abre novas perspectivas e oportunidades para os produtores nacionais, que sem dúvida serão beneficiados por este esforço de conquista de novos mercados”.

TN Petróleo – Além de reafirmar os compromissos da estatal com o meio ambiente, a criação da Petrobras Biocombustível, em julho passado, mostrou que a Petrobras pretende trabalhar pela integração das atividades na área de biocombustíveis hoje espalhadas por várias diretorias e assumir a liderança no setor. Como isso vai ser feito?

Alan Kardec – As atividades de biocombustíveis que estavam distribuídas em três áreas da companhia – Abastecimento, Gás e Energia e Internacional foram transferidas para a nova subsidiária. A decisão teve o propósito de reforçar a atuação da companhia neste segmento. A Petrobras Biocombustível atuará na produção de biodiesel e etanol. As atividades de logística e comercialização continuam com a Petrobras.

As primeiras informações sobre a empresa deram conta de investimentos programados da ordem de US$ 1,5 bilhão até 2012. De alguma forma, hoje, o desenrolar da crise econômica mundial ameaça esses planos? Houve mudanças? Há alguma perspectiva de redução desses investimentos?

Estamos em processo de revisão do planejamento estratégico. A Petrobras Biocombustível atuará, principalmente, no etanol buscando parcerias internacionais que nos garantam mercado externo e parceiros nacionais, produtores de etanol. Não temos ainda dados que apontem alterações em nosso planejamento em virtude desta crise financeira no mercado internacional.

 

“A PETROBRAS BIOCOMBUSTÍVEL ATUARÁ NA PRODUÇÃO DE BIODIESEL E ETANOL. AS ATIVIDADES DE LOGÍSTICA E COMERCIALIZAÇÃO CONTINUAM COM A PETROBRAS.”

 

Entre os planos da nova subsidiária estaria a compra de usinas de produção de biodiesel já existentes, de forma a atingir a meta de produção de 938 milhões de litros de biodiesel por ano, também a partir de 2012. O senhor confirma esta possibilidade?

Esse assunto está sendo discutido na revisão do planejamento estratégico em curso na empresa.

Por ocasião do lançamento da nova subsidiária, alguns empresários chegaram a manifestar preocupação quanto a uma possível “estatização” do setor, já que não poderiam competir com o poder de fogo da nova empresa. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Esse temor procede?

Muito pelo contrário, a entrada da Petrobras Biocombustível no mercado de abre novas perspectivas e oportunidades para os produtores nacionais. Um dos objetivos é fomentar e fortalecer o mercado externo. Prova disso é o modelo de parcerias que a empresa adotou para a produção de etanol, e que pretende replicar pelo Brasil, através dos CBios, que tem como política a busca de parcerias com empresas internacionais que garantam mercado no exterior e produtores nacionais de etanol.

“A ENTRADA DA PE TROBRAS BIOCOMBUSTÍVEL NO MERCADO ABRE NOVAS PERSPECTIVAS E OPORTUNIDADES PARA OS PRODUTORES NACIONAIS. UM DOS OBJETIVOS É FOMENTAR E FORTALECER O MERCADO EXTERNO.”

Também por ocasião do lançamento de sua subsidiária, a Petrobras chamou a atenção para o fato de a nova empresa nascer comprometida com a missão de ampliar a presença da agricultura familiar no processo produtivo de biocombustíveis, e com a obtenção do Selo Combustível Social, de acordo com o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel. Isso está sendo trabalhado?

Sim, o projeto das usinas da Petrobras Biocombustível para produção de biodiesel está diretamente atrelado à parceria com a agricultura familiar, buscando sempre a sustentabilidade econômica, social e ambiental. Todas as usinas da nova subsidiária estão equipadas para processar diversos tipos de oleaginosas vegetais, sebo bovino e óleos e gorduras residuais. Também estão sendo desenvolvidos projetos e iniciativas para assistência técnica e distribuição de sementes de oleaginosas para incentivar, fortalecer e viabilizar o projeto da agricultura familiar. A meta é desenvolver parcerias com perto de 80 mil agricultores familiares para fornecimento de 160 mil toneladas de grãos de oleaginosas por ano. Nossas duas usinas, Candeias e Quixadá, inauguradas em julho e agosto, já possuem o Selo Combustível Social.

Resultado de parcerias entre produtores brasileiros e conglomerados internacionais, os CBios também estariam na mira da Petrobras Biocombustíveis para a produção de etanol de terceira geração, destinado à exportação. O senhor poderia, por favor, falar sobre as perspectivas de produção nacional de etanol, e que a parcela dessa produção estaria voltada para exportação?

Estamos trabalhando com etanol de primeira geração, mas o Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) tem investido no desenvolvimento de biocombustíveis de segunda geração, à base de resíduos agroindustriais. É o caso do etanol de lignocelulose, que utiliza enzimas para o processo de obtenção de açúcares a partir da celulose existente, por exemplo, no bagaço de cana-de-açúcar. A nossa meta é atingir a produção e exportação de 4,75 bilhões de litros de etanol destinados ao mercado internacional. Para isso, pretendemos construir 20 Cbios, buscando parceiros internacionais que nos garantam mercado externo e produtores nacionais de etanol. Os CBios também produzirão energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar.

Da estratégia corporativa da Petrobras faz parte atuar globalmente na comercialização e logística de biocombustíveis, liderando a produção de biodiesel e ampliando a participação no negócio de etanol. Para ganhar o mercado externo, entretanto, é preciso que o produto brasileiro seja certificado e atenda as exigências internacionais, certo?

Nosso projeto é termos uma participação relevante na produção de biodiesel. Quanto à certificação, no caso do etanol, o Brasil possui posição de destaque e padrão de qualidade internacional. Nossa expectativa é garantir o mesmo padrão na produção de biodiesel e com isso atender as especificações do mercado internacional.

Pesquisadores de vários países dizem que é fundamental aplicar as melhores práticas para a produção de biocombustíveis, de forma a obter impactos positivos tanto para sustentabilidade das áreas cultiváveis, como para fornecer um espaço de longo prazo à produção. Como disseminar tal fundamento numa cadeia de produtores que ocupa uma área tão extensa, como no Brasil?

A Petrobras Biocombustível possui parcerias com os órgãos estaduais das Secretarias de Agricultura, que prestam assistência técnica e desenvolvem pesquisas junto à agricultura, e outras entidades governamentais e não governamentais, com o objetivo de implantar projetos de desenvolvimento, incentivo e capacitação dos agricultores familiares. Apenas na primeira etapa foram investidos R$ 27 milhões. Também está previsto o desenvolvimento de um projeto para a correção de solo, com o objetivo de melhorar a produtividade da agricultura familiar nas regiões onde se encontram nossas usinas. A empresa assume o desafio de ampliar a presença da agricultura familiar, observando sempre a sustentabilidade empresarial, social e ambiental.

Sistemas de produção sustentável de biocombustíveis constituem uma alternativa significativa para atenuar os efeitos das mudanças climáticas. Mas, para que isso ocorra, são necessárias muitas pesquisas e políticas com sólida base científica, dizem os estudiosos. O senhor acha que, nessa questão, o Brasil está no caminho certo?

Sim, além do etanol, que o Brasil já produz há 30 anos, tornando-se referência mundial na produção de energia renovável, nosso país também apresenta condições especialmente favoráveis para o desenvolvimento de matérias-prima para o biodiesel, devido ao clima favorável, à disponibilidade de água e terras e à diversidade de oleoginosas. Além disso, a Petrobras por intermédio do seu Centro de Pesquisas & Desenvolvimento (Cenpes), criou o Programa Tecnológico de Energias Renováveis, que desenvolve projetos relacionados à pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para a produção de biocombustíveis de primeira e segunda geração. Atualmente o Cenpes está em fase de testes para a produção de etanol de lignocelulose, que utiliza enzimas no processo de obtenção de açúcares a partir da celulose existente. O desafio técnico já foi vencido. A corrida agora é tornar o processo economicamente viável, desenvolvendo industrialmente enzimas mais baratas. A planta protótipo está prevista para 2010. As pesquisas desenvolvidas pela Petrobras abrem perspecti- vas para a produção de biodiesel com a utilização mais intensa de oleaginosas abundantes na flora brasileira que

“O BRASIL APRESENTA CONDIÇÕES ESPECIALMENTE FAVORÁVEIS PARA O DESENVOLVIMENTO DE MATÉRIAS- PRIMA PARA O BIODIESEL, DEVIDO AO CLIMA FAVORÁVEL, À DISPONIBILIDADE DE ÁGUA E TERRAS E À DIVERSIDADE DE OLEOGINOSAS.”

estão sendo testados em duas usinas experimentais do Núcleo Experimental de Energias Renováveis, vinculado ao Cenpes, situado em Guamaré, no estado do Rio Grande do Norte.

Qual a fatia do mercado externo que a Petrobras Biocombustível pretende disputar?

A Petrobras Biocombustível se prepara para atender parte da crescente demanda mundial por biocombustíveis, além de reforçar seu compromisso com o meio ambiente e com o desenvolvimento social de forma sustentável. No caso do etanol, toda a produção será destinada para o mercado externo.

Qual é a planta atual de etanol, e qual a meta de produção para os próximos anos?

O primeiro projeto de produção de etanol da empresa é no município de Itarumã, em Goiás. O empreendimento é resultado de uma parceria da Petrobras Biocombustível com as empresas Mitsui (Japão) e Itarumã Participações

(Brasil). O primeiro Complexo Bioenergético terá capacidade de produção anual de 200 milhões de litros de etanol, além de gerar 50

MW de energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar. Nossa meta é atingir em 2012 a produção e exportação anual de 4,75 bilhões de litros de etanol.

A questão da logística de escoamento da produção de biocombustíveis sempre é lembrada como um dos principais obstáculos à expansão do setor. Hoje o modal rodoviário ainda responde pela maior parcela desse transporte, o que eleva custos e reduz a competitividade do produto brasileiro. De que forma isso pode ser mudado?

Conforme já foi dito antes, as atividades de logística e comercialização continuam com a Petrobras.

A Petrobras Biocombustível tem a intenção de promover parcerias tecnológicas com países em desenvolvimento, para que estes possam investir na produção de biocombustíveis, reduzir seus gastos com a compra de combustíveis fósseis e aplicar esses recursos para o bem estar da população?

O desenvolvimento tecnológico em biocombustíveis é conduzido pelo Cenpes, que historicamente busca parcerias com diferentes entidades e instituições em seus projetos.

Com quantas (e onde) unidades a Petrobras Biocombustível opera hoje, e quais são as próximas a entrar em operação?

clip_image026Para a produção de biodiesel foram construídas três usinas. Sendo que duas, instaladas em Candeias (Bahia) e Quixadá (Ceará) já estão em fase de produção. Outra, localizada em Montes Claros (Minas Gerais) está em fase de condicionamento operacional e será inaugurada ainda este ano.

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