A QUÍMICA DO MEIO AMBIENTE

A química verde (ou green chemistry, ou química sustentável) foi introduzida há cerca de dez anos nos EUA pela EPA (Environmental Protection Agency), a agência de proteção ambiental daquele país, em colaboração com a American Chemical Society (ACS) e o Green Chemistry Institute. Esta iniciativa norte-americana vem despertando o interesse de organizações governamentais e não-governamentais de vários países.

Na Europa, Japão e Estados Unidos foram inclusive criados Prêmios para incentivar pesquisadores de Indústrias e Universidades a desenvolverem tecnologias empregando os princípios da química verde. Desde 1996, quando o Presidential Green Chemistry Awards foi criado nos EUA, mais de uma dezena de Corporações e Investigadores foram premiados.

Na Europa, a Royal Society of Chemistry (RSC), com o apoio de setores industriais e governamentais, instituiu em 2001 o U.K. Green Chemistry Awards, para premiar empresas e jovens pesquisadores que "desenvolverem processos químicos, produtos e serviços que levem a um ambiente mais sustentável, limpo e saudável". Além disso, a RSC criou a Green Chemistry Network (GCN), com o objetivo de "promover a conscientização e facilitar a educação, treinamento e prática da green chemistry na indústria, academia e escolas". Outra importante iniciativa da RSC foi a criação, em 1999, da revista Green Chemistry, de periodicidade bimestral, dedicada à publicação de artigos inéditos que, de alguma forma contribuem para o desenvolvimento da área-título do periódico.

A química verde pode ser definida como a utilização de técnicas químicas e metodologias que reduzem ou eliminam o uso de solventes e reagentes ou geração de produtos e sub-produtos tóxicos, que são nocivos à saúde humana ou ao ambiente. Este conceito, não é novidade em aplicações industriais, principalmente em países com controle rigoroso na emissão de poluentes. Ao longo dos anos os princípios da química verde têm sido inseridos no meio acadêmico, em atividades de ensino e pesquisa.

O que hoje está sendo chamado de química verde na verdade não apresenta nada de novo, uma vez que a busca um desenvolvimento auto-sustentável há anos está incorporada nos ideais do homem moderno. A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e a Rio+10 são exemplos de iniciativas que mostram a crescente preocupação mundial com as questões ambientais. A química verde pode ser encarada como a associação do desenvolvimento da química à busca da auto-sustentabilidade.

A Química Ambiental estuda os processos químicos que acontecem na natureza, sejam eles naturais ou causados pelo homem (fontes das poluições, das reações químicas, dos efeitos e das velocidades reacionais das espécies químicas na água, no solo e no ar) e que comprometem não só a saúde humana, mas de todo planeta.

Teve sua origem na Química Clássica e se tornou uma ciência interdisciplinar por envolver outras matérias como: Biologia, Ecologia, Geologia. Essa parte da química estuda as mudanças que ocorrem no meio ambiente, mais precisamente, os processos químicos que envolvem essas mudanças e que causam sérios danos à humanidade.

Por exemplo, pela Química Inorgânica pode-se estudar a adsorção de produtos químicos pelo solo e sedimentos, pela Química Orgânica, os mecanismos da degradação de pesticidas, pela Físico-Química a cinética e a termodinâmica da transformação e degradação do meio ambiente, pela Química analítica detecta a presença dos contaminantes do meio ambiente, especialmente os de baixas concentrações, pela Biologia os efeitos das descargas na estrutura dos ecossistemas aquáticos, pela Toxicologia os efeitos dos produtos químicos na saúde dos seres vivos, etc. A área que mais influencia a extensão da química ambiental nos campos acima é a da Química Analítica.

No Brasil, as últimas décadas foram marcadas por um crescimento da conscientização dos cidadãos sobre os danos causados pelas atividades humanas inadequadas. Sejam em indústrias ou em seus próprios lares, essas atividades têm gerado efluentes e resíduos: sólidos, líquidos e gasosos, que acabam tendo seu destino final na atmosfera, nos solos e nas águas.

Como essas transformações ameaçam o meio ambiente, há uma grande preocupação em entender os processos que a envolvem. A química ambiental existe justamente para isso, para abranger os mecanismos que definem e controlam a concentração das espécies químicas que precisam ser monitoradas. Sendo assim, expandem os horizontes da Química convencional, criando parcerias com outras áreas como a Toxicologia e Engenharia Sanitária.

É importante este estudo para entender os aspectos químicos dos problemas que nós seres humanos criamos no meio onde vivemos. Esse mesmo ambiente há alguns anos antes de começar os processos de poluição, era um ambiente natural, ou seja, sem poluentes.

Estudar o meio ambiente é compreender as inter-relações do uso dos recursos naturais com o clima, a litosfera, os vegetais, a hidrosfera e a atmosfera. Já a química ambiental é o estudo das origens dos produtos químicos, dos intercâmbios de energia e matéria, das reações químicas do ambiente, dos efeitos e das velocidades reacionais das espécies químicas na água, no ar, no solo e no meio dos seres vivos.

Enfim, é a Química Ambiental uma ciência multidisciplinar cujos estudos preocupam-se com tudo que está relacionado com a vida e seu meio, isto é, a atmosfera (diminuição do ozônio na estratosfera, poluição do ar na Troposfera), a hidrosfera (chuva ácida, águas acidificadas, drenagem de ácidos de minas, purificação das águas poluídas) e a litosfera (lixo perigoso, metais pesados, uso dos pesticidas) e a biosfera (produtos químicos tóxicos na cadeia alimentar, metais pesados e compostos orgânicos tóxicos, acumulo e destino dos compostos clorados nos sistemas biológicos). Ela procura compreender os ciclos hidrológicos, do nitrogênio, do fósforo, da água, etc. Em termos sociais procura descrever o manuseio das emissões industriais, a proteção da saúde do ser humano, a proteção do ambiente natural e testar e avaliar novos produtos químicos.

A QUÍMICA DA BIOSFERA

A biosfera é o sistema biológico que inclui todos os organismos vivos da terra e que interagem com o ambiente físico como um todo. Ela é uma parte do planeta capaz de manter a vida, aonde ocorrem ciclos de energias e as diferentes atividades dos compostos químicos. Sua altura é menor que 15 km e tem sido afetada pelas atividades do homem. Dos materiais nela existentes encontramos grandes quantidades de água, diversos compostos químicos, nos estados sólido, líquido e gasoso, além de receber uma quantidade substancial de energia do Sol. Aproximadamente 100 bilhões de toneladas de matéria orgânica são produzidas na Terra por organismos fotossintéticos. Dos mais de 100 elementos químicos existentes na Natureza, cerca de 40 são necessários para a vida. O carbono, o hidrogênio, o oxigênio e o nitrogênio são necessários em grande quantidade.

O Ecossistema

O Ecossistema é um sistema termodinâmico aberto e estável, de dimensões variáveis, onde os seres vivos interagem entre si e com seus vizinhos, de maneira equilibrada, por meio dos movimentos da matéria e uso de energia solar (esquema abaixo). O ecossistema é estruturado por elementos abióticos (substâncias inorgânicas, compostos orgânicos), água (hidrosfera), ar (atmosfera), solo (litosfera) e por elementos bióticos (produtores – autótrofos - e consumidores - heterótrofos/decompositores).

O fluxo da energia é aberto e numa direção. A matéria está num ciclo fechado e não pode ser perdida do ecossistema, pois os nutrientes são consumidos e restaurado no ciclo.

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A Energia

O homem tem criado uma série de fontes de energia, algumas renováveis outras não. Dentre as energias renováveis está uma parte da energia elétrica. As fontes de energia, com exceção da energia solar, e suas porcentagem de uso são mostradas nos gráficos abaixo.

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A Terra

A Terra, este planeta de ~ 4,5 bilhões de anos, é constituída de uma esfera externamente sólida, cujo núcleo é constituído, basicamente, de ferro e ligas de ferro, como mostrado esquematicamente na Fig. I.1. Sua superfície é constituída de óxidos e silicatos de metais. Na sua crosta existe uma grande variedade de compostos químicos, desde a água aos óxidos de silício, cálcio, compostos de carbono, etc.

Acima da crosta terrestre está a atmosfera. Ela é constituída de uma diversidade de gases, destacando-se o nitrogênio e o oxigênio. O oxigênio é abundante, mas encontra-se na sua maior parte combinado, formando diferentes óxidos, tal como, a água e o gás carbônico.

Esta diversidade de elementos e suas combinações é que permitiu a existência da vida. Portanto, a compreensão das reações químicas naturais que aí ocorrem, e as que o homem cria, fornece subsídios para entendermos nossa existência e nossas relações com o meio em que vivemos.

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Estrutura da Terra

O desenvolvimento tecnológico crescente da civilização tem colocado em uso uma série de substâncias que contaminam a atmosfera, o solo, os rios e os mares, de um modo mais rápido que a Natureza pode absorver, poluindo cada vez mais o ambiente em que vivemos. O desconforto com o mau cheiro e a existência de produtos tóxicos concentrados no ambiente urbano já ameaçam a saúde e a vida dos seres vivos. Os lixões aumentam a cada dia. Por exemplo, segundo a Cetesb, no Estado de São Paulo são gerados anualmente 560 mil toneladas de resíduos. A principal atividade industrial geradora de resíduos perigosos é a química, que gera 177 mil t/ano. Destes 53% são tratados, 31% são estocados e 16% são jogados no solo. Esta concentração de produtos químicos, se mal tratados, pode ocasionar o desaparecimento de espécies vivas e até produzir catástrofes. Por outro lado, os seres vivos necessitam de moradias, de remédios, de alimentos para sua reprodução e proteção, etc. e novos materiais são sempre necessários.

No caso da agricultura o uso inadequado de agrotóxicos e fertilizantes pode causar sérios problemas ao ambiente. Como exemplo, o uso indiscriminado de diversos tipos de praguicidas, em excesso, tem provocado vários acidentes ambientais. Existem, atualmente, ~100.000 fórmulas de defensivos agrícolas com base em 1.500 produtos químicos ativos. Ao sintetizarmos os agrotóxicos, visando o aumento da produtividade, é claro que uma parcela destes produtos vai ser absorvida pelos vegetais, enquanto a outra se incorpora ao solo, podendo atingir os lençóis freáticos e causar poluição ao ambiente. As conseqüências destas observações é que poderemos, com o passar do tempo, não ter mais condições de vida, seja para o meio microbiano, ou vegetal ou animal. Estes fenômenos impuseram a necessidade de se estudar as reações químicas danosas que estão ocorrendo no meio ambiente para que se possamos, se possível, neutralizá-las ou evitá-las. Surgiu, assim, um novo ramo de estudos de química: a química do meio ambiente ou a química ambiental.

Hoje, os estudos na química ambiental envolvem um largo espectro de conhecimentos das diferentes áreas do conhecimento humano, como descrevemos acima.

O progresso industrial e o crescimento populacional provocam os químicos e a indústria química desenvolverem substâncias recicláveis e fontes de energia que não produzam resíduos que comprometam o meio ambiente, nos estimulando às futuras pesquisas e o desenvolvimento de modelos teóricos e práticos mais acurados e mais confiáveis.

OS 12 PRINCIPIOS DA QUÍMICA VERDE

Criou-se ao longo dos anos um consenso sobre os principais pontos ou princípios básicos da química verde. Os doze pontos que precisam ser considerados quando se pretende implementar a química verde em uma indústria ou instituição de ensino e/ou pesquisa na área de química são os seguintes:1

1.Prevenção.

É mais barato evitar a formação de resíduos tóxicos do que tratá-los depois que eles são produzidos;

2.Eficiência Atômica.

As metodologias sintéticas devem ser desenvolvidas de modo a incorporar o maior número possível de átomos dos reagentes no produto final;

3.Síntese Segura.

Deve-se desenvolver metodologias sintéticas que utilizam e geram substâncias com pouca ou nenhuma toxicidade à saúde humana e ao ambiente;

4.Desenvolvimento de Produtos Seguros.

Deve-se buscar o desenvolvimento de produtos que após realizarem a função desejada, não causem danos ao ambiente;

5.Uso de Solventes e Auxiliares Seguros.

A utilização de substâncias auxiliares como solventes, agentes de purificação e secantes precisa se evitada ao máximo; quando inevitável a sua utilização, estas substâncias devem ser inócuas ou facilmente reutilizadas;

6.Busca pela Eficiência de Energia.

Os impactos ambientais e econômicos causados pela geração da energia utilizada em um processo químico precisam ser considerados. É necessário o desenvolvimento de processos que ocorram à temperatura e pressão ambientes;

7.Uso de Fontes de Matéria-Prima Renováveis.

O uso de biomassa como matéria-prima deve ser priorizado no desenvolvimento de novas tecnologias e processos;

8.Evitar a Formação de Derivados.

Processos que envolvem intermediários com grupos bloqueadores, proteção/desproteção, ou qualquer modificação temporária da molécula por processos físicos e/ou químicos devem ser evitados;

9.Catálise.

O uso de catalisadores (tão seletivos quanto possível) deve ser escolhido em substituição aos reagentes estequiométricos;

10.Produtos Degradáveis.

Os produtos químicos precisam ser projetados para a biocompatibilidade. Após sua utilização não deve permanecer no ambiente, degradando-se em produtos inócuos;

11.Análise em Tempo Real para a Prevenção da Poluição.

O monitoramento e controle em tempo real, dentro do processo, deverá ser viabilizado. A possibilidade de formação de substâncias tóxicas deverá ser detectada antes de sua geração;

12.Química Intrinsecamente Segura para a Prevenção de Acidentes.

A escolha das substâncias, bem como sua utilização em um processo químico, devem procurar a minimização do risco de acidentes, como vazamentos, incêndios e explosões.

Desta maneira, ao se procurar tecnologias que empregam a química verde, deve-se estar atento a três pontos principais:

  1. O uso de rotas sintéticas alternativas para a química verde, tais como:
    Catálise e biocatálise;  Processos neutros, tais como fotoquímica e síntese biomimética;
    Matérias-primas alternativas, que sejam mais inócuas e renováveis     (biomassa, por exemplo).
  2. O uso de condições reacionais alternativas para a química verde, tais como:
        Uso de solventes que tenham um impacto reduzido na saúde humana e no     ambiente;
        Aumento da seletividade e redução de resíduos e emissões.
  3. O desenvolvimento de produtos químicos que sejam, por exemplo:
        Menos tóxicos que as alternativas atuais;
        Mais seguros com relação à ocorrência de um possível acidente.

Entre os itens citados acima, a maior parte se aplica especialmente à produção industrial. Entretanto, vários pesquisadores vêm buscando a adaptação das premissas da Química Verde ao ensino e pesquisa em química a nível acadêmico. Um químico treinado e formado desta maneira terá um impacto significante na solução de problemas relacionados ao ambiente.

Referências:

  1. Anastas, P.T.; Warner, J. Green Chemistry: Theory and Practice; Oxford University Press: Oxford, 1998.
  2. Cann, M.C.; Connelly, M.E. Real World Cases in Green Chemistry, American Chemical Society: Washington, DC, 2000.
  3. Collins, T.J. J. Chem. Educ. 1995, 72, 965.
  4. Collins, T. Science 2001, 291, 48.
  5. Detalhes sobre a premiação e informações sobre o programa de incentivo à Green Chemistry da RSC estão disponíveis em: http://www.chemsoc.org/networks/gcn/awards.htm.
  6. Para saber mais sobre a utilização de catalisadores e prevenção de poluição, veja: Sheldon, R.A. Chem. Ind. 1997, 12; Cusumano, J.A. J. Chem. Educ. 1995, 72, 959.
  7. Para uma revisão sobre a aplicação de biocatalisadores em processos industriais veja: Sime, J.T. J. Chem. Educ. 1999, 76, 1658.
  8. Presidencial Green Chemistry Challenge (PGCC) Awards Program. A home page da EPA apresenta uma relação completa dos projetos premiados desde 1996: http://www.epa.gov/greenchemistry/pubs/pgcc/presgcc.html.
  9. Para uma revisão sobre a utilização de CO2 super-crítico como solvente "verde" veja: Wells, S.L.; DeSimone, J. Angew. Chem. Int. Ed. 2001, 40, 518; para informações sobre a utilização de água próxima do estado super-crítico como solvente em reações orgânicas, veja: Eckert, C.A.; Liotta, C.L.; Brown, J.S. Chem. Ind. 2000, 94.

O DESAFIO DA PRODUÇÃO MAIS LIMPA

ROMILDO CAMPELO

Até pouco tempo atrás, questões ambientais não faziam parte do cotidiano de grande parte das empresas, tanto no Brasil como no resto do mundo. A geração de resíduos provenientes do processo industrial não era encarada como um problema, e o controle sobre materiais despejados na água, no ar ou no solo praticamente não existia. Com o crescimento e a diversificação das atividades produtivas e o conseqüente aumento da geração de resíduos, os órgãos de controle ambiental passaram a exigir das empresas o licenciamento ambiental, bem como o controle e o tratamento de suas emissões atmosféricas, resíduos sólidos e efluentes líquidos. Foi aí que surgiu a figura do técnico em gestão ambiental, que atuava como um gerente-geral, único responsável pela relação entre a empresa e o ambiente.

Com o passar do tempo, e em razão de graves acidentes ambientais que ocorreram nas últimas décadas, a melhoria do desempenho ambiental deixou de ser uma simples preocupação e se transformou em meta de muitas empresas. Com isso, desaparece o responsável único pela área ambiental e tem início uma fase em que todos os trabalhadores da empresa são responsáveis pelo ambiente. A introdução das certificações de empresas pela ISO 14001 passou a garantir que as empresas, além de cumprirem a legislação ambiental, estão comprometidas com a melhoria contínua dos processos de controle do passivo ambiental.

Aconteceu, porém, que muitas empresas, mesmo obtendo todas as certificações possíveis e dedicando enorme esforço para garantir o mínimo de impacto sobre o ambiente, começaram a perceber que o custo ambiental aumentava na mesma proporção do crescimento da produção. Aumentar a produção significava gerar mais resíduos e gastar mais recursos para tratá-los ou dispô-los adequadamente. Os empresários viram-se então diante de um dilema: como produzir mais garantindo que os custos ambientais não inviabilizem a atividade da empresa? A resposta para essa questão é bastante simples. Deixando de gerar resíduos. Mas como isso é possível?

A aplicação dos conceitos da Produção Mais Limpa, estratégia ambiental de prevenção da poluição na empresa com foco nos produtos e processos, permite otimizar o emprego de matérias-primas, de modo a não gerar ou minimizar a geração de resíduos, reduzindo os riscos ambientais para os seres vivos e trazendo benefícios econômicos para a empresa.

Com a realização de balanços de massa e de energia, é possível avaliar processos e produtos e, com isso, identificar oportunidades de melhoria que levam em conta aspectos técnicos e econômicos para a definição e a implementação de indicadores para o monitoramento do ambiente. Dessa forma, benefícios ambientais e econômicos são gerados para as empresas graças à redução do impacto ambiental e ao aumento da eficiência do processo de produção industrial.

Todas as matérias-primas, água e energia que entram na empresa são transformadas em produto, que vai ser vendido, ou saem da empresa como resíduos sólidos, efluentes líquidos ou emissões atmosféricas, que devem ser tratados. Então, quanto menos resíduos forem gerados, menores os custos de tratamento.

O conceito de Produção mais Limpa acrescenta aos custos ambientais de tratamento o valor que a empresa já pagou pelas matérias-primas e que, depois de empregadas no processo produtivo, foram transformadas em resíduos. Isso ajuda o empresário a lembrar que todos os resíduos gerados foram anteriormente adquiridos com preço de matéria-prima. Com isso, transformar todas as matérias-primas em produtos -e não em resíduos- passa a ser mais uma das metas da empresa.

A aplicação da Produção Mais Limpa evita a geração de passivo ambiental e de custos ambientais, o que é do interesse da empresa. Ao mesmo tempo, reduz o impacto ambiental proveniente da atividade industrial, o que interessa aos órgãos ambientais e à sociedade. Além disso, e talvez essa seja uma informação ainda não totalmente compreendida por muitas empresas, melhora a qualidade dos produtos, a saúde e a segurança dos trabalhadores. Para atingir esses objetivos, são fundamentais o comprometimento da direção da empresa, a colaboração dos funcionários e, principalmente, a curiosidade, a persistência e a vontade de romper paradigmas.

Romildo Campelo é diretor do Departamento de Meio Ambiente do Ciesp

(Centro das Indústrias do Estado de São Paulo).

A ATUAÇÃO NA ÁREA AMBIENTAL
Marcos Sillos

Químicos, em sua atuação profissional, estão sendo convidados para a discussão sobre a sustentabilidade do nosso modo de vida no planeta. De início, é importante salientar que a formação do profissional da área química confere habilidades e competências necessárias para atender a esse desafio. Os meios de comunicação destacam exaustivamente as externalidades negativas causadas pela existência humana. É fácil observar que os hábitos adotados pela sociedade deixam um rastro, uma “pegada ambiental”. Como exemplo, pode-se citar o aquecimento global e a escassez de recursos naturais essenciais à vida, em especial a água potável. A sociedade precisa adotar ações de gestão ambiental baseadas na percepção e valoração daqueles recursos, assumindo atitudes e mecanismos para racionalização de seu consumo.

E qual é o papel do Químico nesse cenário? Difícil a tarefa de tentar esgotar todas as possibilidades laborais que podem ser desempenhadas por nós. Iniciemos pelos importantes laboratórios de análises, que possuem uma normatização específica, a ISO 17025, para ensaios e calibrações. Já há centenas de profissionais atuando nesse ramo, que cresce significativamente ano a ano. O desempenho nesse setor requer a competência da área química, não só pelo escopo das análises, que avaliam a alterações de qualidade do ar, água e solo, mas também nas aplicações de sistema de qualidade e pesquisas para o desenvolvimento de novos métodos analíticos, nas diferentes matrizes ambientais – em busca de respostas para: o que avaliar? Qual exatidão? Qual limite de detecção?

Esse diferencial do Químico, de pleno domínio do cenário da contaminação ambiental, decorre de sua expertise em elaborar o escopo da atividade produtiva presente e passada, para avaliar impactos no ar, no solo, na água, sua toxicidade e risco, e, por fim, entender quais os processos de dispersão envolvidos e as interações geobioquímicas que podem acontecer na natureza afetada, em particular quanto à redução e atenuação da mesma.

Focando no processo de avaliação das externalidades, a atuação do Químico em campo passa a ser de extrema importância no processo de obtenção de amostras e de dados relevantes sobre o cenário em avaliação. Importante destacar que essas atuações (campo e laboratório) têm suas peculiaridades, tornado ainda mais interessante nossa profissão. De um lado, o laboratório, com ar condicionado, bancada e jalecos brancos impecáveis, e, de outro, a natureza (com maior ou menor grau de preservação) com suas intempéries e imprevistos, mas da qual se deve obter dados criteriosos para as futuras avaliações, interpretações e inferências.

Do campo vamos para o escritório, local de trabalho do profissional que escreve relatórios, que verbaliza seu conhecimento aplicado à questão ambiental. Ele produz laudos, pareceres e avaliações baseados em seu conhecimento técnico. Tais tarefas exigem que o profissional utilize toda a bagagem adquirida nos estudos de química orgânica, inorgânica, físico-química, bioquímica, que se constituem em oportunidade para transferir e integrar conhecimento sobre os impactos dos compostos químicos sobre o ambiente e, em especial, de como responder a isso. Nesse meio de atuação, o Químico é qualificado como consultor, auditor, perito gestor, educador ambiental, ambientalista etc.

Alcançando essa etapa da evolução profissional, é o momento em que se inicia o amadurecimento para o nível gerencial de projeto (seja coordenando equipes ou clientes). A capacidade de raciocínio lógico quantitativo do Químico é um facilitador para que ele se torne um líder, um gerente, um diretor de empresa prestadora de serviço, saneamento, estatal ou mesmo da indústria onde atua e gerencia seu sistema de gestão ambiental.

Como o mercado tem se pautado por regulações e normatizações, na área ambiental a norma ISO 14001, por exemplo, gera diversas oportunidades para o profissional. Para isso, porém, ele terá de fazer treinamentos específicos e se prover de certificações. Essa normatização possibilita, às empresas, identificar os processos e as práticas mais sustentáveis em seu sistema de gestão ambiental. Esta é uma das áreas que mais tem gerado oportunidades de negócios/empregos na atualidade, além de representar aspecto positivo no trato de nossa atuação profissional.

De maneira semelhante a do auditor que se pauta pela ISO 14001, o Químico educador ambiental leva conhecimento a leigos e profissionais de outras áreas sobre a adequada gestão e preservação do meio ambiente. Da mesma forma, durante sua formação básica, o Químico também adquire conhecimento dos riscos a que estará sujeito por sua profissão e, por isso, possui competência para transmitir noções preventivas e de como usar a química de forma construtiva, para desenvolver uma sociedade mais equilibrada.

Interessante notar que qualquer que seja a esfera de atuação pretendida pelo profissional (pública ou privada), as tarefas cotidianas são similares. No caso de empresas públicas ou mistas, o acesso se faz por meio de concursos públicos, o que aponta para a necessidade de cursos de extensão universitária em tópicos de gestão ambiental, de modo a complementarem-se conteúdos que os referidos concursos solicitam.

Concluindo, se por um lado a atividade química frequentemente tem sua imagem desgastada pela associação com cenários de poluição, de outro, ela é imprescindível para a sociedade. O profissional, sempre que aplicável, deve destacar o “lado verde” da química, reforçando a sua contribuição para a gestão sustentável dos recursos naturais. Temos, então, muito a contribuir para construir a verdadeira sustentabilidade, possibilitando uma sociedade que preserve o meio ambiente e utilize seus recursos com sabedoria.

Conclamo os colegas a aceitarem o convite inicial formulado neste texto. Percebo que o desejo por um modo sustentável de vida e pela ação coerente, ética e conservativa é compartilhado pelos Químicos, conforme constato no meu cotidiano. Muito se espera de nós, em particular que sempre consideremos os critérios ambientais em nossas decisões como gestores de empresas, de processos, de comunidades ou como educadores, pois todos têm responsabilidade para com este assunto. Sinto-me privilegiado por ser um Químico hoje!

Aos que querem construir uma carreira na área ambiental, indico a receita que eu mesmo segui: especialize-se constantemente.

Bacharel em Química pela USP e Mestre em Tecnologia Ambiental pelo IPT, o autor é
diretor  da Edutech Ambiental.  Contatos podem ser feitos pelo e-mail
marcos@edutechambiental.com.br.

Fonte:

http://www.crq4.org.br/default.php?p=informativo_mat.php&id=427

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