Nikola Tesla - Minhas Invenções - Meus primeiros esforços como inventor




MEUS PRIMEIROS ESFORÇOS COMO INVENTOR


Vou me ocupar dessas experiências extraordinárias brevemente por causa do interesse que podem ter para estudantes de psicologia e fisiologia, e também porque este período de agonia teve grande impacto no meu desenvolvimento mental e no meu trabalho subseqüente. Mas é indispensável primeiro relacionar as circunstâncias e as condições que lhes precederam e em que se pode encontrar uma explicação parcial para eles.
Desde a infância eu fui forçado a concentrar minha atenção além de mim mesmo. Isso me causava muito sofrimento, mas, tal e como eu vejo agora, foi uma bênção disfarçada, pois que me ensinou a apreciar o valor inestimável de introspecção quando a preservação da vida, e como um caminho a seguir. A pressão das nossas ocupações e a incessante corrente de impressões derramando em nossa consciência através das portas do conhecimento fazem com que a existência moderna seja arriscada de muitas maneiras. A maioria das pessoas estão tão absortas na contemplação do mundo exterior que são totalmente alheias ao que está acontecendo dentro de si mesmas. A morte prematura de milhões podem ser atribuídas, principalmente a esta causa. Mesmo entre as pessoas de caráter cauteloso é um erro comum evitar os perigos imaginários e passar por alto os reais. E o que é verdade para um indivíduo também serve, mais ou menos, para as pessoas como um todo. Veja, por exemplo, o movimento de proibição. Uma medida drástica, se não inconstitucional, está sendo aprovada neste país para evitar o consumo de álcool, no entanto, é um fato comprovado que o café, o chá, o tabaco, a goma de mascar e outros estimulantes, que são livremente permitidos inclusive na mais tenra idade, são muito mais prejudiciais para o corpo da nação, a julgar pelo número de pessoas que sucumbem a eles. Assim, por exemplo, durante meus anos de estudante deduzi que os obituários publicados em Viena, no lar de bebedores de café, que as mortes por problemas cardíacos, por vezes, chegou a sessenta e sete cento do total.
Observações semelhantes podem ser feitas, provavelmente, nas cidades onde o consumo de chá é excessivo. Essas deliciosas bebidas sobre-excitam e esgotam gradualmente as fibras delicadas do cérebro. Também interferem seriamente com a circulação sanguínea e deveriam ser apreciadas com moderação, tanto porque seus efeitos nocivos são lentos e imperceptíveis. O tabaco, por outro lado, leva ao pensamento fácil e agradável, e é nocivo para a concentração requerida e intensidade necessária em todo esforço vigoroso e original do intelecto. A goma é útil durante um curto período de tempo, mas em seguida consome o sistema glandular, causando dano irreparável, para não mencionar a repulsão que levanta. O álcool em pequenas quantidades é um excelente tônico, mas sua ação é tóxica quando absorvido em grandes quantidades, e é bastante irrelevante se tomado em um uísque ou se produzido no estômago a partir do açúcar. Mas não se deve esquecer que todos eles são ótimos evacuadores servindo a Natureza - pois o fazem - para sustentar sua lei, rigorosa mas justa, a sobrevivência do mais apto. Os reformistas entusiastas também deveriam estar atentos para a perversão eterna da humanidade, que faz com que o indiferente laissez-faire seja de longe preferível à restrição. A verdade é que precisamos de estimulantes para dar o melhor de nós mesmos de acordo com as condições de vida atuais e devemos exercer a moderação e controlar nossos apetites e inclinações em todos os sentidos. Isto é o que eu fiz por muitos anos e assim me mantido jovem de corpo e mente. A abstinência não foi sempre de meu agrado, mas encontro uma ampla recompensa nas experiências agradáveis que tenho agora. Somente com a esperança de converter alguns aos meus preceitos e convicções, lembro-me de um ou dois.
Recentemente, voltei para o meu hotel. Era uma noite de frio intenso, o chão estava escorregadio e não havia táxis. Meia quadra atrás de mim, veio outro homem, evidentemente, tão ansioso quanto eu para ser resguardado. De repente minhas pernas se elevaram no ar. No mesmo instante, se produziu um flash no meu cérebro, os nervos responderam, os músculos se contraíram, girei cento e oitenta graus e aterrissei sobre as mãos. Retomei minha caminhada como se não houvesse ocorrido nada, quando o estranho me alcançou. "Quantos anos você tem?" Ele me perguntou como se houvesse me inspecionado de forma crítica. "Oh, alguns, cinquenta e nove, eu disse, e?". "Bem, disse ele, eu vi um gato fazer isso, mas nunca um homem. " Cerca de um mês atrás, eu queria pedir novo óculos e fui ao oculista, assim que eu fiz os testes habituais, ele olhou para mim, incrédulo bem como eu li sem tropeços a menor letra, a uma distância considerável. Mas quando lhe disse que eu tinha passado dos sessenta, soltou uma exclamação de surpresa. Meus amigos, muitas vezes observavam que meus ternos se encaixam como uma luva, mas não sabiam que todas as minhas roupas foram confeccionadas a partir de medidas tomadas a quase 35 anos atrás e nunca mudaram. Durante este período, o meu peso não mudou meio quilo.
Em conexão com isso, contarei uma história engraçada. Uma noite, no inverno de 1885, o Sr. Edison, Edwar H. Johnson, presidente da Edison Uluminating Company, o Sr. Batchelor, gerente de obras, e eu entramos em um pequeno escritório em frente ao número 65 na Quinta Avenida, onde os escritórios da empresa ficavam. Alguém sugeriu que adivinhasemos nossos pesos e me levaram a subir na balança. Edison me apalpou em toda parte e disse: "Tesla pesa cento e cinquenta e duas libras e uma onça", e adivinhou com precisão. Nu, pesava cento e quarenta e duas libras e esse é todavia meu peso. Eu sussurrei para o Sr. Johnson: "Como é possível que Edison pudesse adivinhar meu peso com tanta precisão?". "Bem, ele disse, baixando a voz, eu vou dizer-lhe confidencialmente, mas não deve comentar nada. Ele foi contratado por um longo tempo em um matadouro em Chicago onde pesava milhares de porcos todos os dias. É por isso. " Meu amigo, o Honorável Chauncey M. Depew, fala de um inglês que lhe falou uma de suas anedotas originais e que escutava com uma expressão confusa, mas -um ano depois, fui rir. Francamente, devo confessar que me levou mais tempo para apreciar a piada de Johnson.
Agora, o meu bem-estar é apenas o resultado de uma forma cuidadosa e medida de vida e, talvez, mais surpreendente é que, na minha juventude, a doença deixou-me três vezes em um estado físico sem esperança ao qual os médicos me davam por perdido. Além do mais, a ignorância e descuido, me meteram em todos os tipos de dificuldades, perigos e dificuldades que me tomaram por encanto. Quase me afoguei uma dúzia de vezes, quase me escaldo vivo e quase me incineraram. Me extraviei, fui sepultado e congelado. Eu escapei por um pelo de cães raivosos, porcos e outros animais selvagens. Já passei por doença aterrorizante e eu conheci todos os tipos de acidentes estranhos e estar saudável e feliz hoje parece um milagre. Mas quando eu me lembro dos incidentes, estou convencido de que minha preservação não foi totalmente acidental.
Os esforços de um inventor consistem, essencialmente, em salvar vidas. Não importa se domina forças, melhora dispositivos, ou fornece novos confortos e conveniências, está a aumentar a segurança de nossa existência. Também é mais qualificado do que o indivíduo médio para proteger-se de riscos, porque é observador e tem muitos recursos. Se eu não tivesse tido outra prova de que eu, de certa forma, possuía essas qualidades, teria a encontrado nestas experiências pessoais. O leitor pode julgar por si mesmo se eu mencionar um ou dois exemplos. Uma vez, quando eu tinha uns quatorze anos, eu queria assustar alguns amigos que estavam tomando banho comigo. Meu plano era mergulhar em uma estrutura flutuante longa para chegar silenciosamente ao outro lado. Nadar e mergulhar eram para mim tão natural quanto para um pato e estava seguro que poderia levar a cabo a façanha. Consequentemente, eu pulei de cabeça na água e quando estava fora de vista, eu me virei e avancei rapidamente para o lado oposto.
Como eu pensava que estava a salvo do outro lado da estrutura, subi para a superfície, mas, para meu espanto, eu bati em uma viga. Supostamente, submergi rapidamente e segui adiante com braçadas rápidas até que minha respiração estivesse quase se esgotado. Quando me levantei pela segunda vez, minha cabeça entrou novamente em contato com uma viga. Agora eu estava começando a me desesperar.
Mesmo assim, depois de ter recolhido toda a minha energia, eu fiz uma terceira tentativa frenética mas o resultado foi o mesmo. A tortura de prender a respiração estava se tornando insuportável, meu cérebro estava cambaleando e eu estava me sentindo afundado. Naquele momento, quando a minha situação parecia totalmente desesperada, eu experimentei um desses flashes de luz e a estrutura acima me apareceu diante a visão. Discerni ou adivinhei que havia um pequeno espaço entre a superfície da água e as placas que descansavam sobre as vigas, e com a consciência quase perdida, sai à tona, pressionei minha boca contra as placas e consegui inalar um pouco de ar, infelizmente, misturado com um pouco de água que quase me afogou. Repeti este procedimento várias vezes como em um sonho até que o coração que pulsava a um ritmo terrível, se acalmou e me tranquilizou. Depois disso, eu fiz alguns mergulhos sem sucesso pois havia perdido completamente o senso de direção, e finalmente consegui sair da armadilha, quando meus amigos já me davam por perdido e nadavam buscando meu corpo.
A temporada de banhos me estropiou por causa da minha imprudência, mas em seguida aprendi a lição e apenas dois anos mais tarde, eu me encontrei em uma situação pior. Havia um grande moinho de farinha com uma barragem no rio que corria perto da cidade onde eu estava estudando.
Geralmente, a água atingia uma altura de apenas oito ou dez centímetros acima da barragem e nadar até ela era um esporte não muito perigoso em que eu me ocupava com freqüência. Um dia fui sozinho ao rio para desfrutar, como sempre. Quando eu estava a uma curta distância da alvenaria sem embargo, fiquei horrorizado ao ver que a água tinha subido e estava me arrastando rapidamente. Eu tentei sair, mas era tarde demais. Felizmente, no entanto, eu fui salvo de ser varrido agarrando a parede com ambas as mãos. A pressão contra o meu peito era grande e eu apenas era capaz de manter minha cabeça à fora. Não havia uma alma a vista e eu perdi minha voz no rugido da cachoeira. Lenta e gradualmente, eu estava exausto e era incapaz de resistir a tensão por mais tempo. Justo quando estava prestes de me deixar cair contra as rochas abaixo, eu vi em um flash de luz um diagrama conhecido como princípio hidráulico segundo o qual a pressão de um fluido em movimento é proporcional a área exposta e automaticamente eu me virei para o meu lado esquerdo. Como que por magia, a pressão caiu e eu vi que, comparativamente, era fácil resistir à força da corrente nessa posição. Mas o perigo estava me perseguindo. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde seria arrastado, pois não era possível qualquer ajuda me alcançar a tempo, embora atraísse atenção para mim. Agora eu sou ambidestro, mas era canhoto em comparação, tinha pouca força em meu braço direito. Por esta razão, não me atrevi a virar ao outro lado para descansar e não era possível empurrar lentamente o corpo ao longo da barragem. Eu tive que sair do moinho girando meu rosto no momento em que a corrente era mais rápida e profunda. Foi uma provação longa e dolorosa e quase falhou no final, pois me vi frente a frente com uma depressão na alvenaria. Eu consegui a última gota de minha força para sair e caí desmaiado quando alcancei o banco onde fui encontrado. Quase toda a pele da minha costa esquerda estava dilacerada e passaram várias semanas antes que a febre sumisse e eu me recuperasse. Estes são apenas dois dos muitos exemplos, mas podem ser suficientes para mostrar que, se eu não tivesse instinto de inventor, não haveria vivido para contar essa história.
As pessoas interessadas têm muitas vezes me perguntado como e quando comecei a inventar. Isso só posso responder a partir de minhas memórias atuais, à luz das quais a primeira tentativa que lembro-me foi muito ambiciosa, porque envolveu a invenção de um aparelho e método.
Quanto ao primeiro, eu tinha tudo planejado, mas -o segundo era original. Aconteceu assim. Um dos meus colegas tinha entrado em posse de um anzol e um aparelho de pescar que suscitou bastante excitação no povo, e na manhã seguinte tudo começou com a caça de rãs. Eu fui deixado sozinho e abandonado por causa de uma briga com este menino. Eu nunca tinha visto um anzol de verdade e eu pintei-o como algo maravilhoso dotado de qualidades peculiares; desejava com todas as minhas forças me juntar ao grupinho. Urgido pela necessidade, de algum modo consegui um pedaço de cabo de ferro doce, martelei-o ao extremo entre duas pedras para fazer uma ponta afiada, lhe dei forma curva e o amarrei a uma corda forte. E em seguida, cortei uma cana, consegui algo de isca e fui ao rio, onde haviam rãs em abundância. Mas eu não pude caçar nenhuma e estava quase desalentado quando me ocorreu em fazer pender o anzol vazio ante uma rã que estava sentada em um toco. O animal primeiro submergiu, mas pouco a pouco seus olhos se espreitaram e se injetaram em sangue, se inchou até dobrar de tamanho e deu um bote feroz na isca. Imediatamente, a levantei. Tentei a mesma coisa de novo e de novo e o método se mostrou infalível. Quando meus companheiros, que, apesar de sua equipe magnífica; não tinham pego nada, me encontraram, estavam verdes de inveja.
Por um longo tempo eu mantive o meu segredo e gostei do monopólio, mas finalmente o revelei em honra ao espírito do Natal. Qualquer criança poderia, então, fazer o mesmo e o verão seguinte foi um desastre para as rãs.
Na minha próxima tentativa parece que agi sob o primeiro impulso instintivo que mais tarde eu dominei: aproveitar as energias da natureza para servir ao homem, eu fiz isso através das abelhas, que são uma verdadeira praga nos Estados Unidos e que às vezes quebram galhos de árvores pelo simples peso de seus corpos. Os arbustos estavam negros de tantos que haviam. Eu atava quatro abelhas a um trava, colocada em um eixo delgado, e transmitia o movimento das abelhas a um disco largo e assim obtinha uma quantidade de "energia" substancial. Estas criaturas eram notavelmente eficientes, pois uma vez que começassem, não paravam e continuavam girando por horas e horas, e quanto mais calor fazia mais trabalhavam. Tudo ia bem até que um garoto estranho veio ao lugar. Ele era filho de um oficial do exército austríaco. Aquele garoto comia as abelhas vivas e as desfrutava como se fossem a melhor das ostras blue point. Aquela visão asquerosa terminou com minhas tentativas nesse campo promissor e desde então eu não tenho sido capaz de tocar uma abelha, ou qualquer outro inseto, de verdade.
Depois disso, acredito, assumi a tarefa de desmontar e montar os relógios do meu avô. Na primeira operação sempre tinha exito, mas muitas vezes não na segunda. Então ele de repente interrompeu o meu trabalho de uma forma muito delicada e passaram trinta anos antes que eu abordasse de novo um relógio. Pouco depois, me dediquei a fabricar uma espécie de pistola de cortiça constituída por um tubo oco, um pistão e dois tampões de cânhamo. Ao disparar a arma, o pistão pressionava contra o estômago e com as duas mãos fazia retroceder o tubo rapidamente. O ar que havia entre os tampões ficava comprimido e alcançava uma temperatura elevada e um deles era expelido com um forte estalo. O truque consistia em selecionar um tubo de dimensões apropriadas a partir dos caules ocos.
Consegui manejar bem com essa pistola, mas minhas atividades interferiram com os cristais da janela da nossa casa e encontrou uma deficiência dolorosa. Se bem me lembro, então tomei carinho as espadas talhadas com peças de mobiliário que podia conseguir confortavelmente. Naquela época, eu estava sob a influência da poesia nacional sérvia e cheio de admiração pelos feitos dos heróis. Passava horas cortando os meus inimigos em forma de talos de milho, o que arruinava lavouras e me garantiu várias palmadas da minha mãe. E estas não eram de brincadeira e sim as autênticas.
Isso e muito mais eu tinha a minha volta até a idade de seis anos, e já havia passado um da escola elementar de Smiljan, a cidade onde nasci. Neste momento, nós nos mudamos para a pequena cidade de Gospic, que estava perto. Esta mudança de referência foi uma calamidade para mim. Quase quebrou meu coração por separar-me de nossos pombos, galinhas, ovelhas e nosso magnífico bando de gansos que costumavam subir até as nuvens de manhã e regressar ao seu forrageamento ao entardecer em formação de batalha tão perfeita que faria envergonhado um esquadrão dos melhores aviadores de hoje. Em nossa nova casa não era senão um prisioneiro, observando as pessoas estranhas que eu via através das cortinas da janela. Minha timidez era tanta que preferiria haver topado com um leão rugindo que com uma das crianças da cidade que andavam a passeio. Mas minha prova mais dura veio em um domingo, que tive que me vestir e assistir o serviço. Lá eu esbarrei em um acidente, cuja mera lembrança fez durante muitos anos que o sangue coalhasse como leite azedo. Era minha segunda aventura em uma igreja. Não muito tempo antes havia estado sepultado durante uma noite em uma antiga capela em uma montanha inacessível que era visitada apenas uma vez por ano. Foi uma experiência horrível, mas isso era pior. Havia uma senhora abastada na cidade, uma boa mulher mas pomposa, que costumava ir à igreja maravilhosamente pintada, vestida com uma enorme cauda e acompanhada por uma comitiva. Um domingo eu tinha acabado de tocar o sino no campanário e descia correndo as escadas no momento em que esta grande senhora estava saindo da igreja com arrogância e eu saltei sobre sua calda. Se rompeu com um ruído rasgado que soava com uma salva de mosquetaria disparada por recrutas selvagens. Meu pai estava lívido de raiva. Ele me deu uma suave palmada no rosto, a única punição corporal que ele já administrou a mim, mas eu posso quase sentir ainda. A vergonha e confusão que se seguiu são indescritíveis. Praticamente me condenou ao ostracismo até que aconteceu algo que me resgatou na estimativa da comunidade.
Um jovem comerciante empreendedor tinha organizado um corpo de bombeiros. Se havia comprado um novo carro de bombeiros, forneceu uniformes e foram instruídos os homens para o serviço e desfiles. O carro era realmente uma bomba que deviam lidar dezesseis homens e foi belamente pintado de vermelho e preto. Uma tarde, o teste oficial estava pronto e a máquina foi transportada para o rio. Toda a população saiu para testemunhar o grande espetáculo. Quando foram concluídos todos os discursos e cerimônias, a ordem foi dada para bombear, mas não saiu uma única gota de água da bica. Professores e especialistas tentaram em vão localizar o problema. Quando cheguei ao local era completo o fracasso. Minha compreensão do mecanismo era nula e eu sabia quase nada sobre a pressão do ar, mas instintivamente toquei a água na mangueira de sucção e percebi que tinha colapsado. Quando eu entrei no rio e o desentupi, a água disparou em jorros e se desfigurou não poucos trajes de domingo. Arquimedes correndo nu pelas ruas de Siracusa gritando eureka e com todas as suas forças não pode causar maior impressão do que eu causei. Me levaram a ombros e fui o herói do dia.
Depois de me instalar na cidade, comecei um curso de quatro anos na chamada Escola Normal, como preparação para os meus estudos na faculdade Real-Gymnasium. Durante este período meus esforços e gestos infantis, assim como meus problemas, continuaram. Entre outras coisas, consegui a excepcional distinção de campeão dos caçadores de corvos do país Minha forma de ação foi extremamente simples. Fui para a floresta, me escondia entre os arbustos e imitava o canto de um pássaro. Normalmente, recebendo várias respostas e em um curto espaço de tempo um corvo tremulava em direção aos arbustos perto de mim. Então, tudo o que eu precisava era lançar um pedaço de papelão para distrair sua atenção, pular e agarrá-lo antes que ele pudesse sair dos arbustos. Desse modo capturava quantos quisesse. Mas em uma ocasião, aconteceu algo que me fez respeitá-los. Havia pego um lindo par de pássaros e estava voltando para casa com um amigo.
Quando saímos da floresta, milhares de corvos se reuniram e foram montando uma bagunça horrível. Em poucos minutos, vieram atrás de nós e logo estávamos cercados. A diversão durou até receber de repente uma pancada na cabeça que me derrubou. Então, me atacaram cruelmente. Eu fui forçado a liberar os dois pássaros e eu estava muito feliz de encontrar meu amigo, que tinha se refugiado em uma caverna.
Na classe, havia alguns modelos mecânicos que me interessavam e eu virei minha atenção para turbinas de água. Eu construí muitas delas e encontrei grande prazer em lidar com elas. O incidente pode ilustrar quão extraordinária era a minha vida. Meu tio não estava acostumado a este tipo de passatempo e mais de uma vez me deu uma reprimenda. Eu estava fascinado por uma descrição de Niagara Falls que eu tinha lido e, na minha imaginação, visualizava uma grande roda impulsionada pelas quedas. Eu disse ao meu tio que eu estava indo para a América para realizar este projeto. Trinta anos depois, vi as minhas ideias colocadas em prática em Niagara e fiquei maravilhado com o mistério insondável da mente.
Eu fiz todos os tipos de dispositivos e aparelhos, mas os melhores foram as bestas. Minhas flechas, quando eram disparadas, desapareciam da vista em um campo fechado e atravessavam uma prancha de pinho de dois centímetros e meio de espessura. Por estar continuamente tencionando arcos, desenvolvi uma crosta de pele no estômago muito parecida com a de um crocodilo e até hoje eu me pergunto se isso se deve a este exercício, o fato é que agora eu posso digerir pedras! Tão pouco posso silenciar minhas performances com o estilingue que me permitiram dar uma exposição sensacional no hipódromo. E agora eu vou dizer uma das minhas façanhas com este antiga ferramenta de guerra que forçará ao máximo a credulidade do leitor. Estava praticando enquanto caminhava com meu tio ao longo do rio. O sol estava se pondo, as trutas estavam brincalhonas e, ocasionalmente, alguma pulava no ar com força, seu corpo radiante, nitidamente definido contra alguma rocha. É claro que qualquer criança teria atingido um peixe sob essas condições favoráveis, mas tomei uma tarefa muito mais difícil e contei a meu tio nos mínimos detalhes, o que pretendia fazer. Ia lançar uma pedra para pescar, que iria pressionar o corpo da truta contra a rocha e a partir em duas. Foi dito e feito.
Meu tio olhou para mim e quase fora de si, exclamou: "Vade retro, Satanás!" e apenas uns dias mais tarde, voltou a falar comigo. Outras memórias, mesmo que sensacionais, se perderam, mas sinto, que poderiam descansar sobre os louros tranquilamente mil anos.

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